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Nas últimas semanas, muito foi dito sobre o horror representado pela volta dos Talibãs ao poder no Afeganistão. Pouco foi dito sobre o pano de fundo dessa situação, que expõe a falência do recorrente intervencionismo de potências mundiais em espaços periféricos. 

No cruel xadrez geopolítico mundial, muitos peões são sacrificados em nome do objetivo maior. Nem russos, que lá estiveram entre 1979 e 1991, nem a coalização liderada pelos estadunidenses, após 2001, conseguiram produzir qualquer transformação positiva no Afeganistão. Invadidos por soviéticos, governados por malucos fundamentalistas, bombardeados impiedosamente pela máquina bélica de um EUA ferido após o 11 de Setembro e novamente obrigados a viver sob ocupação militar ao longo de mais duas décadas de incessante guerra, os pobres afegãos estão fartos de serem violados em seu direito mais fundamental: o de viver em paz, com um mínimo de dignidade. Agora voltam a estar à mercê dos fundamentalistas.  

E de quem é a culpa? Dos russos, que começaram essa baderna lá na Guerra Fria, só para ampliar sua já enorme influência sobre a Ásia? Dos estadunidenses, que armaram e treinaram os mujahedins (guerrilheiros religiosos) afegãos para combater os soviéticos, semeando o que viria mais tarde a ser os Talibãs e a Al Qaeda? Dos malucos fundamentalistas e nacionalistas que, quando finalmente expulsaram os invasores estrangeiros e assumiram o poder, conseguiram piorar ainda mais a qualidade de vida daquele povo? Dos intervencionistas ocidentais que em 20 anos não fizeram nada transformador, pois só estavam interessados em vender armamentos ou acessar as riquezas minerais afegãs, como as enormes reservas de lítio? Ou, quem sabe, a culpa agora possa ser atribuída aos chineses – já que virou moda – que, com claros interesses na região, já cometeram o sacrilégio de reconhecer o novo governo talibã e buscar dialogar com ele?  

A meu ver, como se diz, o buraco está mais embaixo. Os pobres afegãos pagam o preço por serem exatamente isso: pobres, descartáveis, peões a serem sacrificados. Externalidades, diriam os marxistas. Papel tristemente desempenhado também por outros povos em diversas situações similares. O jogo do poder está centrado nos interesses econômicos. O resto é secundário. Inclusive as pessoas. 

O azar dos afegãos é o de não ter o prestígio – e a relevância econômica – dos europeus ocidentais ou dos japoneses. Para esses povos, nos anos traumáticos do pós-II Guerra, a intervenção internacional veio em forma de dinheiro. Muito dinheiro! Receberam somas astronômicas dos EUA para sepultarem o fascismo, se reconstruírem rapidamente e não virarem comunistas. Afinal, não estavam na periferia do mundo: habitavam espaços centrais e altamente lucrativos para as corporações capitalistas. Além disso, é claro que o dinheiro não lhes foi doado e o custo de se tornar devedor é sempre elevado. Mas isso é outro assunto. 

O que houve no pós-II Guerra é exceção. Na maioria dos casos, as potências dominantes, amparadas pelo tal “deus mercado”, adoram fazer intervenções úteis para eliminar desafetos políticos e reconduzir os territórios ao papel por elas desejado. Suas ações “civilizatórias” são especializadas em destruir, mas não em reconstruir algo novo e melhor no espaço destroçado – ao contrário do que ocorreu nos exemplos da Europa e Japão. Quando não optam pela imposição de bloqueios econômicos, adoram fomentar guerras e criar o caos.  

Dois breves exemplos do Oriente Médio, só para mantermos a proximidade com o caso afegão, foram a destruição dos regimes de Saddam Hussein no Iraque e de  Muamar Kadafi na Líbia. O que veio no lugar? Há mais de uma década os sujeitos foram destituídos, capturados e executados, e os países seguem um inferno! 

Não me entenda mal, caro leitor: eu não convidaria nenhum desses ditadores para jantar em minha casa. Mas espero que ninguém seja ingênuo de acreditar que havia algum propósito humanitário de reconstrução, voltado aos interesses daquelas sociedades. Iraquianos e líbios atualmente vivem em países ainda piores do que eram antes das ditas intervenções: simples assim! Registre-se, aliás, que apesar de tudo, a Líbia de Kadafi tinha o melhor IDH da África! Enfim, a situação por lá pode ter melhorado apenas para um punhado de empresários locais, para a indústria armamentista e para as transnacionais que fazem a festa com o petróleo, mas não para a população. 

Nas últimas semanas, a mídia sensacionalista, empenhada em vender notícias que dão lucro no momento (momento, aliás, que parece já ter passado), cansou de explorar a tragédia da volta dos Talibãs ao poder no Afeganistão. “O que será das mulheres?”, “o que será da liberdade religiosa?”, “o que será do futuro desse país?”. As terríveis imagens do desespero no aeroporto de Cabul ajudaram muito.

A mídia e a atenção mundial agiram como se antes, por lá, tudo fosse uma maravilha e agora estivesse indo por água abaixo. Acho essa postura de uma enorme hipocrisia, pois nos mesmos veículos midiáticos não houve quase nenhuma análise ou denúncia sobre o descaso completo que foi dispendido pelos interventores ao resiliente povo afegão. E ponha resiliente nisso! 

O Afeganistão não recebeu investimentos relevantes em educação, saúde, agricultura, saneamento, infraestrutura, qualidade de vida, erradicação da pobreza! Nem russos, nem estadunidenses, nem a ONU! Ninguém fez o dever de casa corretamente nos últimos 40 anos! Talvez até os malucos Talibãs, tirando as maluquices, tenham feito mais pelo bem estar dos afegãos do que a rica e celebrada “comunidade internacional” e sua “ética humanitária”! Fala-se tanto no “fracasso militar” da OTAN por não ter construído uma “base sólida” para o governo afegão enfrentar os Talibãs.

Por que não se fala mais sobre o fracasso social gigantesco de mais essa intervenção de araque, que se vende como restabelecimento da justiça, mas que na realidade se assemelha a urubus disputando a carniça ou à pilhagem contra moribundos?  

Tenho certeza que o investimento para erradicar a miséria e promover estruturas mínimas de vida digna no Afeganistão seria infinitamente mais modesto do que o que foi gasto para recuperar as economias da Europa Ocidental e do Japão no pós-guerra. Ou do que os lucros da indústria de armas nessas incessantes guerras afegãs. Ou do que foi gasto na Guerra Fria para manter as ditaduras na América Latina ou o regime estrategicamente útil do Apartheid na África do Sul. É melhor eu parar com os exemplos, pois há muita sujeira por aí que mereceria a indignação de muitos outros textos sobre as prioridades dos investimentos globais.  

Peço desculpas pela divagação até certo ponto exaltada. Meu argumento, na verdade, é simples. O atual colapso do Afeganistão representa a falência de um mundo que ainda acredita que a pobreza não é o pior inimigo. Representa a paranoia do desejo incontrolável de lucro mesmo sobre a carniça. Representa a perversidade explícita em boa parte das intervenções conduzidas pelo mundo rico em países pobres, sejam elas armadas e/ou econômicas. Representa, em última instância, o fracasso de nossa sociedade e dos princípios sórdidos que, de fato, a regem.  

E deixemos de ser hipócritas: em 40 anos, quase ninguém ligou para o que acontecia – ou não acontecia – no Afeganistão. A miséria afegã, como a de tantos outros povos excluídos nesse mundo cão, não vendia jornais. A volta dos Talibãs, mesmo sendo mais um capítulo terrível para aquela sociedade, não é a tragédia afegã. A real tragédia já estava lá.  

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Daniel Cardoso
Daniel Cardoso
11 meses atrás

Excelente texto Mauro! Muito coerente e elucidativo! Parabéns e obrigado!

Regina
Regina
11 meses atrás

Há um problema na avaliação. Dei nota máxima e registrou 3,5.

Stephanie Abdalla
Reply to  Regina
11 meses atrás

Regina, obrigada pelo feedback. Vamos investigar o que aconteceu. Que bom que gostou do texto!