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Abra a sua agenda e veja sua rotina, seu afazeres, todos os horários que estão preenchidos. Agora, pense naqueles que não estão preenchidos, mas que você sabe que poderiam ser com uma “tarefinha” a cumprir, alguma coisa para arrumar. 

Quanto tempo te sobra para cuidar de si? E não estou falando daquela aula de yoga que você tem duas vezes por semana, com tempo cronometrado. Ela também é boa, claro, mas digo, qual é o tempo que você tem para simplesmente estar, sem se preocupar com a correria da rotina? Com isso dito, mudemos de assunto (só que não), temporariamente: 

As olimpíadas acabaram deixando, como sempre, aquele “gostinho de quero mais” na gente. E, como de costume, muito aconteceu e foi comentado. Mas uma coisa, em específico, quero trazer para refletirmos. O caso da Simone Biles. 

Biles deixou todos perplexos com sua decisão de desistir de algumas modalidades dos jogos para cuidar de sua saúde mental. Mas como assim? – a gente se pergunta – como abandonar uma competição tão importante, com toda a atenção voltada para você e tantos prêmios? E por uma coisa tão pequena – alguns disseram. Quantas pessoas não gostariam de estar ali? Ela é uma ingrata, isso sim, por ter desistido da oportunidade que teve. 

Mas, opa, pera lá. Desistido? A esse pensamento precisamos nos ater porque é curioso o quanto damos atenção a uma prática, ação ou resultado específico, e não consideramos, ou quando muito, minimizamos, todo o campo que permite aquela concretização. 

Em uma sociedade na qual é sinônimo de sucesso ter uma agenda lotada (disse que não estávamos mudando de assunto), o exibicionismo – com extrema perfeição profissional, entende-se – é estimulado, e é cool ter apenas uns minutos para ser “namastê” respirando um ar tóxico de fuligem de queimadas. Para essa sociedade, Biles foi uma transgressora, uma afronta à ordem vigente. 

Mas retorno à questão sobre o que é desistir e essa percepção dos diversos elementos de uma vida, não apenas o irretocável bibelô do “sucesso” social. 

Algumas pessoas, muito inconformadas, disseram que Simone Biles desistiu e que isso era uma fraqueza. Minha primeira preocupação é a compreensão de fraqueza como algo absurdamente ruim. Ué, não temos todos fraquezas? E se há alguma fragilidade em ti, não deveria ser avaliada e melhorada? Ou deveria ser extinta? – é isso que parecia pela fala de muitos nas redes. O sentimento é um atraso e deve ser banido; aqui, quem manda é a sobrevivência do mais rígido. 

Uma espécie de darwinismo disfuncional que, ao invés de entender aquela característica como parte de um todo e passível de ser aprimorada, a vê como um defeito de fábrica, na lógica mercantil. Em outras palavras: tá quebrado, joga fora. 

Agora, passemos para minha segunda apreensão: o que é desistir? Por que parece ser uma falha absoluta? Seria um desvio de caráter impossível de perdão? Ou uma reavaliação de prioridades? 

Não me imagino, nem quero me imaginar, passando por tamanha pressão como a atleta passou. Mas todos já vivemos momentos nos quais tivemos que escolher um caminho. E seria este caminho definitivo? No mundo dos perfeitos sim, aparentemente. Mas na vida real estamos constantemente reavaliando nossas escolhas, de forma que chega um momento que aquilo que fez tanto sentido no passado não faz agora. Escolher continuar por outro caminho não é incapacidade, mas uma readaptação. 

Então ela não desistiu. Ela escolheu outra prioridade para si, deu foco a outro aspecto da sua vida, que lhe cobrava atenção. Isso é fraqueza ou uma força muito grande para abdicar de um desejo por outro? 

E digo mais, é uma dupla coragem. Não só por se afastar de uma situação que estava lhe causando mal, mas também por decidir ir contra todas as acusações inquisidoras que a sociedade lhe faria. 

O que Biles talvez não soubesse é que não só seria apontada pelo mundo, como apontaria de volta para milhares de pessoas. Ao anunciar sua decisão, ela, sem querer, perguntou a todos nós: como está sua saúde mental? Qual sua prioridade neste momento? Você consegue conciliar os aspectos da sua vida? 

E a resposta que vejo pular de tantos é um desesperado “não”. Não estão bem, mas têm que estar. Afinal, fizeram uma escolha de vida, e essa deve ser seguida inquestionavelmente, pelo menos aos olhos da sociedade. Porque o que há de hipocrisia e sentimentos incompreendidos fervilhando nessas panelas de pressão não cabe em um texto de jornal. 

Mas é curioso pensarmos que uma simples pergunta indiretamente feita pode desencadear uma série de processos psicológicos e reações. Que força que esses sentimentos ditos irrelevantes têm. 

Entendo essa histérica reação irracional dos acusadores; não é fácil entrar em contato com sentimentos, não é? Mas tá aí a mágica da cena: ela não é responsável pelas atitudes sociais, ela as capta. E ao fazer isso, lança para nós a intensa questão terapêutica: e você? A partir daí já não tem maratonista que consiga fugir. Não há como escapar de si e de seus próprios questionamentos. 

O que a cena faz é proporcionar um encontro – de si com o outro, e consigo mesmo. E isso é transformador. Tanto que, pela decisão de Biles, já se ouvia do Japão o burburinho de almas rígidas destampando seus sentimentos. 

Esse texto é um convite para que o fim dos Jogos Olímpicos, e, talvez, o adormecimento do caso Biles na mídia, não nos incentive a tampar esses sentimentos. Por isso aquela reflexão dos primeiros parágrafos. 

Lutar contra o ímpeto de reprimir sentimentos é difícil, eu sei, mas também muito potente. Se permitirmos nos compreender, certamente reavaliaremos todos os conceitos que nos regem e à nossa sociedade. E talvez, assim, paremos para, de fato, ter empatia quando a cena capta a dor de alguém. 

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Ana Beatriz Sales
Ana Beatriz Sales
2 anos atrás

Um texto de profunda reflexão, que nos impede de cair em velhos hábitos após o fim das Olimpíadas (e tudo derivado dela). Parabéns para o escritor!!

Beatriz
2 anos atrás

Real, haja coragem pra mudar de curso com tantas expectativas voltadas para ela, e pra nós encararmos nossa realidade.
Muito bom!