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O cinema hollywoodiano já nos comoveu diversas vezes mostrando as atrocidades cometidas, no contexto da II Guerra Mundial, contra famílias judias, já tratadas pelos nazistas como escória humana no abominável Gueto de Varsóvia, enquanto a “solução definitiva” de Auschwitz não era aplicada. Ali, na capital polonesa, cercados e controlados por todos os lados, desprovidos de liberdade e obrigados a sobreviver à base de migalhas, os judeus experimentaram as dores do confinamento em uma autêntica prisão a céu aberto.   

Algumas reviravoltas da História surpreendem pela ironia. Quem diria que, poucas décadas depois, as vítimas se converteriam em carrascos? Capazes de impor, pela força e com requintes de ainda maior crueldade, sofrimento similar a outro povo? Afinal, ao contrário do que ocorreu em Varsóvia, agora não parece haver intensão de que tal condição seja temporária, mas sim de que ela se perpetue, sob o silêncio, talvez sorridente (como diria Caetano), talvez conivente, amedrontado ou, no mínimo, omisso, da comunidade internacional.

Além disso, como a imensa maioria dos palestinos passa longe da opulência econômica da comunidade judaica e nem controla grandes corporações, eles não contam com o poder midiático da indústria cinematográfica para divulgar e perpetuar, como o fazem seus algozes, a saga de suas narrativas nacionalistas.

Ao se deparar com qualquer nova escalada de violência entre israelenses e palestinos, como essa ocorrida em maio último, talvez você se paute pelo senso comum de imaginar o “eterno confronto” entre “loucos”, atribuindo responsabilidades iguais pela barbárie. É sempre mais fácil e prudente imaginar que a culpa deva ser de ambos, não? Lamento chamar-lhe à atenção, caro leitor, mas, nesse caso, nada está mais distante da realidade…

Radicais existem de ambos os lados, é verdade! Embora sejam minoritários, eles desempenham papel importante. Não há negociações diplomáticas que avancem enquanto os interlocutores forem os sionistas extremistas do Lar Judaico ou as lideranças igualmente fundamentalistas do Hamás. As vozes e atos desse tipo de gente só se propagam com tanta contundência porque o espaço estratégico não está sendo ocupado por quem teria a obrigação de propor soluções calcadas no bom senso. Se estes falham e/ou se calam, restam os outros.

Uma das principais bases de sustentação do governo de Israel, há mais de uma década, é a extrema direita. Os partidos mais progressistas do país perderam espaço e as negociações com os palestinos desandaram. A recente ascensão de um político radical como Naftali Bennett ao governo israelense torna o cenário ainda mais deprimente. Queriam alguém pior que o Netanyahu? Aí está… No lado palestino, o Fatah e outros expoentes moderados e laicos há muito tempo já não convencem mais ninguém, após acumularem uma enorme coleção de fracassos.  

Negociações progressistas estão congeladas. Não há qualquer perspectiva de superação dos principais impasses: reconhecimento de fronteiras com a devolução de territórios ocupados; fim da ilegal colonização israelense em terras palestinas; partilha justa de Jerusalém; direito de acesso aos recursos hídricos da Cisjordânia; repatriamento dos refugiados palestinos; garantias de segurança aos dois lados; destruição do vergonhoso e cretino muro imposto por Israel e que simboliza o fracasso diplomático e humanitário na região. Há tempos que todos esses temas só registram retrocessos! Quem paga o pato nesse contexto? Os mais vulneráveis. Sempre eles…     

Assim, qualquer pessoa com o mínimo de sensibilidade e bom senso, ao investigar um pouco melhor os fatos, irá constatar que esse conflito é tão desigual quanto o poder de fogo dos mísseis erráticos do Hamás (mesmo que esses também produzam vítimas, embora em número reduzido) e a máquina de guerra de Israel, uma das mais poderosas do mundo, incluindo a célebre novidade tecnológica batizada de “Domo de Ferro” – vedete do último conflito.

Em busca de informação, essa pessoa também verá que, de um lado, há um país que se julga acima das leis internacionais. Debocha delas. Impõe, unilateralmente, a “paz” do mais forte. Agindo impunemente como moleque mimado, Israel literalmente faz o que quer, blindado pelos vetos (já foram quase 50…) em retaliações discutidas no âmbito do Conselho de Segurança da ONU, garantidos por seu grande mentor-aliado: os EUA, cujo governo teme desagradar a poderosa comunidade judaica americana, responsável por uma fatia expressiva do PIB estadunidense. Como se diz: uma mão lava a outra! E não se iluda: isso não vai mudar! Não há a menor perspectiva de que a rígida solidez dessa relação geopolítica – a mais cimentada do mundo – possa colapsar.

Na geopolítica internacional, há poucos atores com coragem para enfrentar os interesses estadunidenses e israelenses – e às exceções, falta-lhes força para que as denúncias superem a simples retórica. Também há poucas pessoas dispostas a se envolver em ações que pressionem o governo israelense de alguma outra forma – um boicote, talvez? – causando algum impacto ou os conduzindo ao isolamento internacional.

Aos palestinos, resta seguir tentando sobreviver como nas últimas décadas. Quem nasce palestino tem dois caminhos a seguir: ou insiste em uma resistência débil, que camufla a resignação forçada diante do destino cruel de ver a vida passar em um gueto, ou rebela-se, indo engrossar grupos como o Hamás, que ocuparam o espaço vazio deixado pelo Estado e, além de prestarem alguma assistência social local, se dedicam à luta armada que, se não tem qualquer chance de êxito, ao menos oferece algum conforto mental, simplesmente por produzir eventuais danos ao inimigo. O que você faria?

Boa parte dos palestinos sexagenários que vivem na Faixa de Gaza jamais saíram de seu território (confinados por uma vida inteira em, aproximadamente, 15 Km de largura, por 50 de extensão). Quando os bombardeios israelenses começam, os pais de família relatam a agonia de escolher entre manter todos os filhos juntos no mesmo ambiente ou separá-los em cômodos distintos, para que alguém da família possa sobreviver, se vier uma bomba mais certeira. Não há infância saudável na Palestina. Apenas crianças que crescem traumatizadas.

Não há perspectivas aos jovens… Faculdade? Carreira? Esqueça! Em uma das maiores concentrações demográficas de gente miserável no mundo, quase não há espaço para instalar sequer canchas de esporte ou locais de lazer. A economia está em frangalhos! O rancor é gigantesco! A autoestima está destruída! E o espaço disponível ainda está limitado por muros ou barreiras! As poucas aberturas são controladas pelo inimigo. Se você, palestino, tiver sorte, talvez eles te deixem passar. Se você for bonzinho e se comportar de forma educada e cordial, talvez eles liberem a entrada de comida, remédios, eletricidade, vacina da Covid-19, ou seja o que você e sua comunidade necessitam…

Diga lá: é ou não pior do que viver no Gueto de Varsóvia? 

A omissão da comunidade internacional diante desse quadro é imperdoável. Certa ocasião, no Fórum Social, assistindo a uma mesa redonda sobre povos que vivem sob ocupação, vi uma garota palestina desabafar: “todos os anos, vejo vocês organizando palestras, atos de solidariedade, abaixo assinados e passeatas. Mas quando volto para Ramallah (cidade da Cisjordânia), continua tudo igual! Nada muda!”. Nunca mais me esqueci dela…

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