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Quando soube que meu primeiro texto seria um meio de apresentar a proposta da UBS.com e apresentar também um pouco de mim, fiquei congelada, travei. Como vou me definir? O que tem relevância dizer, recordar e dividir? O que sou hoje, e quem? Qual a razão e importância das conversas que vão se abrir através dos textos dessa coluna? 

Bom, eu sou a Carol, sou mãe (sim, de pet, um coelho fofo, branco de manchinhas cinzas, que se chama Jack –Jackinho, para os chegados), irmã (de gente, dessa vez), filha (de gente de novo, sério), amiga… Gosto de pastel de Belém, pastel de Santa Clara, suco de melancia, e um dos meus sabores prediletos de sorvete é pão de mel. Adoro cinema, arte e música, sou introspectiva e ao mesmo tempo uma pessoa tagarela (também não entendo), adoro conhecer lugares, culturas e pessoas diferentes. Adoro, também, entender como as coisas funcionam, o que me ajuda a ter ânimo para estudar em dias preguiçosos. Gosto muito de ler, e, bem, adoro escrever. Dias chuvosos são os meus favoritos – apesar de que, nos ensolarados, as roupas secam bem mais rápido (observações pertinentes na vida dos jovens adultos, vocês entendem) e adoro visitar bosques e lagos. 

“Texto de apresentação” … Pois é. 

Sério, eu congelei. A resposta de cada uma das perguntas ali, lá de cima, é imensa, tanto quanto os questionamentos que algumas delas carregam com si.  E aí me lembrei das pessoas da minha vida e do que me motivou a começar essa coluna. 

Penso, penso, e reconheço que a singularidade de cada pessoa quase sempre é ignorada, dando lugar à uma relação de imposição de valores, crenças e preferencias pessoais, das pessoas umas com as outras. Refletindo, me lembro que isso também acontece nos cenários de saúde, dos profissionais para com os pacientes. 

Penso, penso, e percebo o quanto nossas relações com o meio, com as outras pessoas, influenciam como nos sentimos, o que pensamos e quem somos/seremos – e o quanto influenciamos o que está ao nosso redor, também. 

Penso, penso, e me lembro de um atendimento que tive no hospital, em que me senti uma idiota diante de tamanho desdém e arrogância médica por não entender jargões técnicos que eu não tinha dever nenhum de conhecer – nem com 16 anos, como foi na época, nem com 90, se eu não fosse uma colega de profissão.  

Me lembro, sentindo uma dor na barriga, aguda e intensa – muito intensa – de enfermeiros me levando para o centro cirúrgico, ignorando meu choro e perguntas antes de uma cirurgia de apendicite, eu só tinha 8 anos. Ainda chorando, e em protestos, lembro que administraram algum medicamento intravenoso, ali mesmo, e adormeci no colo da minha mãe, no corredor. Para eles, eu tinha feito algo de errado? Eu me sentia sendo tratada tão mal, aquilo era o normal, estava certo?  

Hoje, do outro lado da história, nesse mesmo cenário, sei responder que não. Não, eu não tinha feito nada de errado. E não, aquilo não estava certo; nem normal, muito menos certo. E, ainda assim, comum? Com certeza. 

De acordo com a definição conceitual científica de um estudo por meio da consulta de artigos da Unifesp, o termo relação terapêutica refere-se a toda e qualquer relação profissional que objetive uma cura. Logo, simplificando, é a relação profissional-paciente – que, para fluir, pede por uma ação que contém alguns pilares. 

E é uma ação decorrente de vínculos de cuidado bem-estruturados, os quais sustentam-se em quatro etapas que permitem, de forma específica, que a ação terapêutica ocorra efetivamente e cumpra sua proposta de curar, ajudar alguém, promover bem estar, amenizar e também acolher dores. Esses pilares são mecanismos presentes em qualquer relação terapêutica, podendo ser instrumentalizados por todos os profissionais de saúde – fonoaudiólogos, dentistas, psicólogos, terapeutas ocupacionais, entre tantos outros. E são eles: o Acolhimento, a Escuta, o Suporte e o Esclarecimento. 

Bom, quando a gente sabe disso e olha pra trás, enxerga que nem sempre fomos bem assistidos por profissionais da saúde, sendo que, por vezes, não se cumpriu nem a primeira etapa, sendo uma postura divergente do que a ética e as orientações durante a formação acadêmica sugerem.  

E, novamente, enxergamos a relação de imposição “se eu não tenho paciência, não importa que esse paciente precise de uma postura na qual eu lhe ofereça escuta, orientações e diálogo, acerca de seu tratamento, não é nada demais nem nada sério e se ele não sabe disso, não vai mudar nada no resultado, só preciso dele pronto para o procedimento”, entre mais vários exemplos. 

Penso, penso… Tratar pacientes de forma humanizada… Mas, afinal, o que é ser humano, se não, uma infinidade de relatividades? Se não, uma completa ausência de padrões e regras? O que é ser humano, se não, ser mais uma exceção, em um mar imenso de exceções?  

Compreendendo isso, o único padrão dentro da conduta dos profissionais de saúde deveria ser a plena consciência de que a humanidade não tem um padrão, uma vez que, a única regra é que somos todos exceções. A humanidade é gigante demais, e o que a faz tão rica, bonita, intrigante e verdadeiramente especial são as pluralidades que a compõe.  

Penso, penso, e percebo que há muito por trás das condutas dos profissionais de saúde. Percebo que, desde o pré vestibular, as motivações individuais perpetuam durante todo o exercício da profissão, refletindo posteriormente, também, na conduta – o que pode ser bastante negativo, ou positivo a depender de qual é essa razão individual.  

Porque no Brasil o vestibular de medicina é tão concorrido? Será que em outros países, com diferentes moedas – e respectivas situações socioeconômicas nacionais –  isso também ocorre? Será que, no Brasil, todos ali estão por vocação, escolha própria, consciente do que demanda o exercício da profissão e, mesmo assim, se interessam por ela? Ou será que essa grande concorrência para a profissão médica, muito bem remunerada aqui, não delata a esperança de uma melhor realidade social, em um país em que a acessibilidade a itens básicos de sobrevivência não está disponível para uma imensa parcela da população? Será que, se a pedagogia, por exemplo – profissão importantíssima –  tivesse a mesma remuneração, reconhecimento e prestígio social da medicina, ou até mais, não seria ela a escolha primeira da maioria dos vestibulandos no Brasil?  

Por que, na medicina, se protegem e se respeitam tanto os colegas – sendo, essa, uma conduta admirável – enquanto na enfermagem existe tanta competição e, via de regra, hostilidade entre si? Por que, também questiono, a enfermagem é constantemente erotizada? E por que ainda não há reconhecimento social e salarial para com a enfermagem no Brasil, uma vez que é uma profissão que exige uma formação de grande aprofundamento e estudos técnico-científicos? Falta coerência. 

Existem muitos estigmas, dogmas, preconceitos, estereótipos, rótulos e crenças errôneas que circundam o âmbito profissional da saúde, em suas diversas nuances – além de uma das mais urgentes pautas, que é a falta de humanidade para tratar outros seres humanos, ignorando suas pessoalidade e alteridade individual que os fazem únicos, unos, com demandas e necessidades de saúde distintas e ímpares. 

E é disso que a UBS.com vai tratar em seus textos. Serão trazidos inúmeros temas, tão diversos e singulares como todo ser humano, e também de urgente importância, que vamos conversar por aqui, dentro do contexto de saúde – incluindo seus discentes acadêmicos, seus profissionais, relações de trabalho nas equipes de saúde, e, por fim, seus pacientes, protagonistas desse cenário tão atual. 

Sejam bem vindos. 

Ah, quase esqueci, como falei ali, um pouco antes, alguma coisinha sobre a minha singularidade é que um dos meus doces favoritos é o pastel de Belém, qual é o seu? 

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Mariza Natalina Gaziola Martinez
Mariza Natalina Gaziola Martinez
11 meses atrás

Parabéns Carol. Gostei da matéria. Acredito que irá acrescentar muito a muitas pessoas. Ah! Também gosto do Pastel de Belém, mas se você tiver oportunidade como o verdade pastel de Belém, em Lisboa. Uma curiosidade: lá em Portugal só é chamado de Pastel de Belém, perto da Torre de Belém. Em qualquer lugar de Portugal é Pastel de Nata.
Beijos, vó Mariza

Fabiana Rodrigues
Fabiana Rodrigues
Reply to  Mariza Natalina Gaziola Martinez
11 meses atrás

Belo texto. Ótima reflexão 👏👏👏