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Olá, meu nome é Gabriella Miranda e desde pequena luto para amenizar injustiças. Lembro-me de situações, que hoje me geram certa vergonha, nas quais entrei em brigas para defender algum amiguinho ingênuo demais. Não interessava quem fosse, agia avidamente para conter cenários caóticos e desiguais. Nunca fui aquela criança privilegiada, mas também não posso reclamar! Cresci num lar sem muitas regalias, mas no fim do dia, sempre tive um teto e comida quentinha.

Certa vez, voltando da escola, em um daqueles dias extremamente frios, sempre atenta! Vi uma família que estava à procura de recicláveis; havia uma criança aparentemente da mesma idade que eu, porém ela estava descalça e sem uma blusa que a pudesse aquecer. Ela era igual a mim, por que ela não tinha um tênis? Naquela época eu não sabia o conceito de desigualdade ou até mesmo injustiça, mas eu sentia! E aquilo me doía de tal forma que resolvi tomar uma atitude.

Comecei a correr em direção a minha casa, “pernas pra que te quero”, peguei o primeiro par de tênis que enxerguei, a minha única touca e uma jaqueta; fui reencontrá-los. No caminho, passavam duas coisas na minha cabeça: “eu vou salvar o mundo” e “por que não pedi pra eles esperarem um pouco?”. Demorei para achá-los, já haviam virado várias esquinas, mas enfim os encontrei. Nunca me esqueci do olhar daquela menina, parecia que estava me enxergando no espelho. Fiquei muito feliz, era o que importava.

Mais tarde, depois de algum tempo procurando, minha mãe me perguntou onde estavam as minhas coisas. Até então, não tinha notado que se foram meu par de tênis preferido e minha touca de crochê.

Hoje percebo, na dimensão em que meu olhar alcança, que aquela injustiça era apenas um pontinho perto das coisas que acontecem. Percebo, que a sensação que tive de alegria não basta para mudar muito e que existem muitas pessoas a procura disto: apenas para satisfazer o ego, postar nas redes sociais, e mostrar o quão extraordinárias são.

Vejo muita injustiça disfarçada de justiça e me pergunto até que ponto algumas atitudes realmente ajudam ou simplesmente se prestam a manter um distanciamento constante entre aqueles que tem tanto, que podem doar, e aqueles que devem se resignar a receber, sem nunca ter a oportunidade de ocupar os mesmos espaços de seus salvadores.

Toda essa percepção me levou a refletir sobre como eu poderia, efetivamente, fazer a diferença, e foi assim que iniciei meus estudos acerca de um sistema que ajuda a perpetuar desigualdades, na busca de encontrar soluções coletivas para questões que afetam a todos nós enquanto sociedade.

Me formei em Direito, com muito esforço e suor, dando o melhor em cada momento, uma vez que sou a segunda pessoa da minha família a ter ensino superior. A primeira, foi a mulher mais batalhadora e inspiradora da minha vida, minha mãe! Enfim, dei o valor devido. Após cinco anos árduos, estava convicta da área que seguiria, pasme! A área mais instigante e a melhor de todo o Direito, a criminal!

Aí sim, comecei a ver o extremo da crueldade. Pessoas sendo mortas injustamente, mulheres sendo atacadas diariamente, crianças e adolescentes sendo abusados, idosos maltratados, animais torturados… poderia passar um bom tempo contando tudo que vi. Me especializei em Ciências Criminais e logo pude desenvolver meu conhecimento no Ministério Público, continuei estudando e pesquisando sobre a historicidade e injustiças do sistema penal.

Hoje, estou na minha segunda especialização, agora em Processo Penal, e trabalho no Tribunal de Justiça, onde posso analisar tudo de forma mais ampla e completa. Mantenho-me atualizada em todos os aspectos do ramo e focada em escrever coisas relevantes. Não vejo sentido em apenas atuar na área de forma exclusiva e não ser útil de diversas maneiras, como esta, por exemplo: escrever as coisas que vivenciei, expor minha opinião, desmascarar todo um sistema.

O objetivo desta coluna será colocar as cartas na mesa, com todas as nuances e detalhes, expondo casos concretos e entendendo a desigualdade e a parte histórica de um sistema judicial prejudicado pela supremacia de classes favorecidas. Pretendo trazer textos que lhe façam pensar, comparar casos verídicos, examinar provas que já foram e podem ser usadas no processo penal, confrontar depoimentos, destrinchar teorias, realmente, aqui quero abrir esse espaço enriquecedor e prazeroso.

Em primeiro plano, começaremos pelo início, por óbvio, porque só assim teremos uma noção de como chegamos a este ponto como sociedade. Qual a origem do sistema punitivo? Por que algumas condutas foram consideradas crimes desde os primórdios? Isto tem algo a ver com a desigualdade social? Como tipificamos o que é ou não crime? Por qual motivo, nas penitenciárias brasileiras, a maioria são negros e pobres? Cadê os criminosos de colarinho branco? Inclusive, você sabe o que isso quer dizer?

Ora, são muitos questionamentos aos quais pretendo aos poucos responder e, com a sua colaboração, definir os diversos temas que podem ser tratados aqui. Podemos realmente criar um diálogo e pode ter certeza que sempre estarei aberta para críticas, elogios e muito debate! Convenhamos, é assim que nos desconstruímos e passamos a entender o lado do outro.

Por derradeiro, através deste espaço, pretendo agregar, com inúmeros apontamentos construtivos – seja por meio de informações jurídicas relevantes, por inspirações literárias ou até mesmo opiniões. Espero que criemos um laço que será de grande valia neste mundo cão, rumo ao conhecimento e à construção de um pensamento crítico!

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Betânia
Betânia
1 ano atrás

Estou ansiosa pelos próximos textos! Para que possamos pensar em soluções para problemas tão emergentes quanto a crise do sistema punitivo/penitenciário é imprescindível que conheçamos suas origens e possamos debater sobre as infinitas questões sociais que o cercam… Parabéns por abrir espaço para a discussão de um tema tão relevante!