Ouça esta publicação

Começo esse diálogo com você, caro leitor, questionando: até que ponto um olhar geográfico pode contribuir na preciosa tarefa de oferecer reflexão de qualidade àqueles que a buscam? O que teria um geógrafo veterano, que passou 26 anos em salas de aula e alguns outros tantos envolvido em pesquisas e projetos sobre questões ambientais e agrárias, a oferecer de relevante ao longo dos textos publicados nesse espaço? 

Tais questionamentos não se apresentam como uma provocação apenas a você, que me dá a honra de ceder parte de seu precioso tempo com sua leitura, mas, sobretudo, a mim mesmo. Afinal, o caráter humanista da Geografia, somado a outros elementos de minha formação, me fizeram inquieto – muitas vezes profundamente indignado. 

Foi com esse espírito que tentei me conduzir como um educador capaz de promover alguma desinstalação nos alunos com quem trabalhei. Sempre acreditei fielmente que precisamos de ação transformadora – até para evitar a contínua reprodução de uma constatação triste: se a Geografia talvez seja a ciência que melhor desenvolva a percepção do mundo em que vivemos, ela inevitavelmente tende a nos conduzir a choques de realidade que podem ser bastante desagradáveis. 

Como tantas vezes afirmou o célebre geógrafo Milton Santos, a humanidade já dispõe de todas as condições materiais e técnicas para produzir um mundo muito mais justo e solidário – se a sociedade reproduz estruturas tão perversas, isso reflete nossa própria escolha enquanto seres humanos. E quando digo “nossa”, repare que não me refiro apenas aos detentores do poder, estejam eles na esfera política que, apesar dos pesares, ainda tende a ser mais acessível, ou na gestão do mundo corporativo e financeiro, um espaço muito mais blindado e menos democrático. As responsabilidades pelo que aí está se estendem a todos aqueles que, mesmo tendo tido acesso parcial ou aprofundado ao conhecimento sobre como as coisas realmente funcionam, imobilizados pela passividade ou conivência, manifestam sua adesão ao sistema. 

Seria fantástico se o olhar geográfico nos mostrasse apenas as maravilhas do mundo, sejam elas fruto da exuberante natureza desse planeta incrível ou da impressionante capacidade criativa, inventiva, técnica e artística de cada uma das múltiplas sociedades que compõem a humanidade. Falar de geografia seria sempre prazeroso. Mas parece que teimamos em produzir vergonhosas disparidades – e, pior, nos acostumamos a elas como se representassem o estado natural das coisas. 

Trataremos aqui de eventos e debates ligados à geo e à ecopolítica. O objetivo dessa coluna será sempre o de provocar reflexões e alimentar bons debates. Os temas da geopolítica e da questão ambiental tendem a ser densos, exigindo algo que se torna cada vez mais raro nos dias de hoje, sobretudo em países como o Brasil: a busca de informação de qualidade antes do posicionamento, a compreensão contextual antes da crítica, a abertura para ouvir argumentos opostos e reconhecer legitimidades em visões conflitantes sem recair no maniqueísmo, a fuga do senso comum.

Vivemos um período profundamente desafiador. As principais utopias ideológicas que marcaram os últimos séculos e se apresentaram como alternativa para o modelo vigente encontram-se desgastadas. Há uma parcela da sociedade que, doutrinada pelo bombardeio ininterrupto de estereótipos produzido por boa parte da mídia de massa e de alguns outros setores sociais conservadores, sequer admite voltar a discuti-las. 

Ao contrário: o que ganha cada vez mais espaço é o fundamentalismo de ideias, marcado pela hostilidade contra quem pensa diferente. Quem diria que, após tantas turbulências e avanços, hoje conviveríamos tão assustadoramente com a volta de fantasmas antigos, como o fascismo, ou com outros mais recentes, como a xenofobia? E esse cenário se agrava quando nos deparamos com a urgência de pensar, planejar e agir coletivamente para reverter problemas alarmantes como o da mudança climática.

Os desafios que se colocam diante de nós exigem habilidades com as quais estamos pouco familiarizados: devíamos cooperar e insistimos em competir; devíamos planejar a longo prazo e somos imediatistas; devíamos exercitar a solidariedade, mas nossos projetos individualistas se sobrepõem; devíamos reduzir nossa pegada ecológica, mas adoramos ser consumistas (ao menos aqueles que podem consumir, já que 1/3 da humanidade está alijada dessa benesse); devíamos perceber o todo mas nossa visão é fragmentada e só enxerga as partes.

Todos queremos viver em paz em um mundo melhor. Todos tendemos a enaltecer valores considerados essenciais, como a democracia, a liberdade, a justiça, a paz, o amor, e até, mais recentemente, a construção de uma relação mais harmônica com a natureza. 

A sustentabilidade não é algo negociável: ou a conquistamos ou desapareceremos desse planeta tão rápido quanto nele surgimos. No entanto, o que discutiremos aqui é que pouco adianta que nos proclamemos ambientalistas sem repensar profundamente nosso estilo de vida, assim como pouco adianta almejar que os direitos humanos sejam respeitados sem questionar as estruturas que os violam. 

Parafraseando os mentores do célebre slogan do Fórum Social Mundial, um outro mundo é, sim, possível. Acreditar nisso por si só, aliás, já exige uma profunda desinstalação pessoal e social. Mas esse outro mundo, que é possível, só virá com atitude, coerência e engajamento. 

5 5 votes
Article Rating
Subscribe
Notify of
guest
1 Comentário
Oldest
Newest Most Voted
Inline Feedbacks
View all comments
PAULO HENRIQUE CAMARGO
PAULO HENRIQUE CAMARGO
1 ano atrás

Precisamos muito nos unir (sem fundamentalismos), ser resistência, “desalienar”, entender as diferenças e lutar pelo bem comum e coletivo, respeitando sempre a integração com o planeta. Parabéns!!!