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Antes de dar vida ao impagável Inspetor Clouseau nos filmes da saga da Pantera Cor de Rosa, o saudoso e genial ator inglês Peter Sellers estrelou, em 1959, a comédia “Um Rato que Ruge”, na qual um país minúsculo e insignificante ousava declarar guerra aos Estados Unidos.

Conquistar o respeito internacional não é tarefa simples. Um bom exemplo vem dos próprios estadunidenses: seu primeiro ato de imposição à comunidade global foi, simplesmente, derrotar militarmente o país mais poderoso do mundo – a Inglaterra – para consolidar sua independência, em 1776.  Como se diz: “chegaram chegando”! E o resto é história!

O histórico do Brasil está longe de ser tão nobre. A condução de nossas relações internacionais está repleta de episódios de submissão covarde e conivência oportunista, que em nada combinam com o enorme potencial de um país “gigante pela própria natureza”. Gigante adormecido, é o que dizem muitos, não sem razão.

A responsabilidade tradicional de proferir o discurso de abertura nas Assembleias Gerais da ONU pode até representar uma honra (dependendo de quem profere o discurso, é claro…)  mas não significa que o mundo esteja, de fato, interessado em nos ouvir com o devido respeito. Até de “anão diplomático” já fomos chamados certa vez, por um membro do governo de Israel. Será que a carapuça nos serve?

Mas sejamos justos: já tivemos alguns lampejos de sabedoria e destreza que contrariaram nossos instintos tradicionais de “rato” e nos proporcionaram marcar alguns pontinhos nesse cenário. Já produzimos diplomatas do quilate de um Sérgio Vieira de Mello que, não fosse a trágica e prematura morte, talvez tivesse chegado a ocupar o cargo de Secretário Geral da ONU.

Aliás, no início desse século, vivemos um período diplomático digno e célebre, marcado pela habilidade na articulação de nossa política internacional e pela reconhecida competência do então chanceler Celso Amorim. Como todo o país em si, a imagem do Brasil no exterior também estava se fortalecendo significativamente.

Foi nesse contexto que nos tornamos um ator decisivo na consolidação do BRICS – aquele bloco essencial de países emergentes, que o ex-ministro de relações internacionais do governo Temer (e ex-candidato à presidência do Brasil) José Serra, pagou o inacreditável mico em uma famosa entrevista por nem saber direito o que era, revelando o quanto estava “preparado” para o cargo. Nesse grupo, mesmo sem o poder econômico da China ou a força intimidadora da Rússia, cabia, sobretudo, a nós a condução da delicada diplomacia de promover diálogo, simultaneamente, com o mundo rico e o mundo pobre, costurando importantes acordos. Sim, houve um tempo em que fazíamos isso muito bem e ganhávamos respeito!

Lembrança atualmente opaca. As relações internacionais do Brasil vivem um momento sombrio. Desandaram como outros aspectos por aqui. Enquanto o clã presidencial insiste em destratar a China (e quem precisa de insumos para vacinas desses ateus comunistas que criaram esse vírus só pra dominar o mundo?), ou posa para fotos sorridentes com lideranças que pregam escancaradamente a xenofobia e o neonazismo, como a deputada alemã Beatrix Von Storch que, recentemente, andou por aqui visitando amiguinhos, o respeito internacional pelo Brasil se dilui.

De forma bisonha, nossa imagem já desgastada afunda ainda mais pela deprimente política ambiental ou pelo desastrado enfrentamento à pandemia. Apesar do orgulho dos insanos, como diria Cazuza, o Brasil “mostrou sua cara” e, lá fora, viramos, outra vez, motivo de piada.

Após perder a escora poderosa do governo Trump, o isolamento internacional de Bolsonaro só não é total porque a ala dos ultraconservadores, mesmo tendo perdido fôlego em vários países importantes (ufa…), ainda ocupa alguns nichos. Nesse contexto, quem sonha com estreitar relações com o BRICS, ampliar estrategicamente a presença na África (como a China, aliás, sabiamente vem fazendo) ou exercer liderança no ambientalismo global, tem que tirar o cavalo da chuva. Até porque lá fora, atualmente, só querem distância de nós.

Quem está disposto a trocar figurinhas conosco é gente nefasta como Viktor Orbán, da Hungria, Andrzej Duda, da Polônia, ou mesmo Naftali Bennett, de Israel (apesar da saia justa com a neonazista alemã – contradições típicas de nosso atual governo). Ou ainda alguns ícones da extrema direita mundial, como a francesa Marine Le Pen ou o italiano Matteo Salvini. Tutti buona gente!

A agenda internacional bolsonarista, além de cuspir marimbondos sobre sua lista interminável de desafetos, aposta suas fichas na barganha para a entrada do Brasil na OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), o condomínio de luxo do mundo globalizado.

Além do status, seria um feito estratégico para o governo, pois o acordo Mercosul – União Europeia, celebrado como importante conquista, está cada vez mais ameaçado pelas crescentes críticas do parlamento europeu à política ambiental brasileira. Além disso, avança no Tribunal Penal Internacional uma ação movida pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) contra Bolsonaro por genocídio e ecocídio. Isso tudo, no entanto, não deve intimidar o “mito”, que adora uma boa briga.  

O mundo globalizado não é um espaço para aventureiros pseudonacionalistas que, ao mesmo tempo em que entregam o país e suas riquezas ao capital internacional, esbravejam como patriotas diante de sua claque nos cercadinhos da vida. Não é um espaço para broncos que, sem travas na língua, não dominam nem os princípios mais elementares da arte da diplomacia.

Para ser efetiva, a cooperação internacional exige atores que não apenas desejem promover o multilateralismo, mas saibam como fazê-lo conquistando o respeito de seus interlocutores. E o verdadeiro respeito não é fruto de truculência, mas sim da competência e inteligência.

Otimista que sou, acredito que o Brasil, um dia, ocupe o lugar destacado do gigante que pode vir a ser no mundo. Mas, nessa selva global, para rugir como um leão, ninguém pode ser governado por ratos. O mundo não é um filme satírico e o exercício da comédia deveria ser deixado para profissionais talentosos, como Peter Sellers. Na vida real, pequenos roedores não rugem; apenas produzem um guincho estridente e desconfortável aos ouvidos.

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