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O Brasil é um país plural e diverso, e a representação do povo também tem que ser assim. É isso o que faz Lana Carollina Ribeiro, mais conhecida como La Minna, através das ilustrações digitais que ela compartilha com o mundo em suas redes. Cultura polpular e religiosidade brasileiras, assim como questões de gênero, são alguns dos temas de suas ilustrações autorais, feitas por meio de composições simples, formas diversas e paletas vibrantes. Tanto os temas quanto a forma com que ela escolhe representá-los são um processo consciente, segundo ela. “Seria injusto falar do país e representar só um grupo de pessoas. Se minha arte é sobre a cultura brasileira, ela precisa abranger todo mundo”, diz.

Natural do subúrbio carioca, La Minna conta que suas ilustrações têm como referência principal sua própria vivência e o que está em seu entorno. “Não tem nada melhor do que você ilustrar aquilo que você vive e o que gosta”, afirma. Por exemplo, ela explica que tanto nas artes que faz quanto nos textos que adiciona às publicações, incluí com frequência referências do Candomblé, sua religião e que isso movimenta muito suas redes. “Eu acabo recebendo muitas mensagens de pessoas que não tinham muita noção sobre o assunto e que se interessam em pesquisar mais por conta das minhas publicações”, explica.

Além de suas próprias experiências, ela se inspira nas obras de Djanira da Motta, Heitor dos Prazeres, Di Cavalcanti e Maria Auxiliadora. Todos são artistas brasileiros da época de 1940 a 1960 e suas obras retratam, de alguma forma, o Brasil popular. Maria Auxiliadora ganhou destaque nacional e internacional com obras mostrando cenas da vida doméstica; Heitor dos Prazeres retratou a vida nas favelas cariocas e foi um dos pioneiros na composição do samba; já Djanira da Motta foi reconhecida por seu retrato dos costumes, cotidiano e rituais tipicamente brasileiros; e Di Cavalcanti se empenhou a fazer arte brasileira livre de estereótipos europeus.

DE REPENTE, ILUSTRADORA

Doodle realizado por La Minna para o Google, em comemoração do aniversário de Jovelina Pérola Negra. Ilustração com cores vibrantes, como amarelo, azul e rosa, na qual a cantora negra é representada no meio, segurando um microfone. Ao seu redor a banda é representada tocando instrumentos do samba.
Doodle sobre Jovelina Pérola Negra, illustrado para o Google em 2022 | Autoria e fonte: La Minna

La Minna conta que se tornou ilustradora por um acaso. Formada em design gráfico pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, ela trabalhou por um tempo na área, em uma rotina bastante mecânica e repetitiva. “Eu queria algo mais criativo”, ela conta. No fim de 2019, depois de ter guardado um pouco de dinheiro, ela resolveu arriscar para ir atrás de algo que a motivasse mais e pediu demissão. “Com o início da pandemia, vi a esperança de conseguir um novo emprego ir por água abaixo, e comecei a viver do auxílio que estava sendo distribuído na época para pessoas com baixa renda. Nessa época, comecei a ilustrar porque eu queria trabalhar com animação, então decidi começar a criar meus materiais do básico mesmo e fui publicando o que eu fazia. Nisso, comecei a receber muitos pedidos de orçamento”.

Inicialmente, por um receio de lidar com a burocracia de ser freelancer, que hoje ela considera exagerado, a artista recusou muitos pedidos, mas, eventualmente, com o alastrar da pandemia e de sua situação de desemprego, ela repensou a situação (e que bom!). “Quando eu aceitei o primeiro pedido, o negócio deslanchou e hoje eu estou muito feliz com o que eu faço. Por isso que, sem querer, eu acabei me encontrando nesse caminho!”

Atualmente, La Minna tem em seu portfólio trabalhos importantes que realizou para grandes empresas como a MTV Latin America, Nubank, Itaú e até Google. “O que eu fiz para o Google é meu ‘xodó'”, diz ela. “Em algumas datas comemorativas, o Google chama algum ilustrador para fazer a ilustração do doodle [aquela imagem que aparece na página inicial do buscador no lugar do logo da empresa]. Eu fui chamada para fazer a arte do dia do aniversário da Jovelina Pérola Negra e eu já era muito fã do trabalho dela, então quando me chamaram foi ‘match’ na hora!”, complementa.

Jovelina foi uma das grandes precursoras do samba no Brasil. Nascida no Rio de Janeiro, a cantora e compositora foi uma representante da cultura do samba “Partido Alto”, da qual La Minna é grande admiradora. “O mais legal [desse trabalho] é que o pessoal lá de fora entendeu que meu trabalho fala sobre isso e me chamou para esse projeto”, diz. Ela completa explicando que como quem a contratou não conhecia a cultura do samba, foi um momento especial para compartilhar mais sobre esse traço brasileiro e que suas sugestões foram bem recebidas pelas empresa, o que garantiu uma representação de qualidade. “Por exemplo, eles queriam que eu colocasse a Jovelina em um palco, mas a cultura do samba é a de que os artistas ficam no mesmo patamar que o público durante as apresentações. Foi bom que eles escutaram minhas sugestões nesse sentido”.

Outro trabalho do qual La Minna se orgulha foi um que realizou para a ONU, para um relatório sobre o uso de plásticos alternativos em regiões da Ásia e África. “A designer responsável pela capa do projeto me encontrou por um acaso nas redes sociais. Ela achou interessante a forma como eu retrato a realidade e que se relacionava com o que ela queria, que era trazer a diversidade de pessoas nas diferentes regiões abarcadas pelo relatório.”

Segundo a ilustradora, se no trabalho para o Google ela estava familiarizada com como fazer a representação, nesse, foi necessário bastante pesquisa.”Nós queríamos focar na mulher para a ilustração, mas como estávamos produzindo para uma região majoritariamente muçulmana, foi preciso muito cuidado ao ilustrar as vestimentas e outras características físicas. Foi um desafio!”.

A RIQUEZA ARTÍSTICA DO BRASIL

Obra "Okê Caboclo", de La Minna, na qual um indígena está no centro, com um joelho no chão, apontando um arco e flecha para cima. Atrás, está a bandeira do Brasil rodeada por árvores.
Obra “Okê Caboclo”. Ilustração Digital, 2022 | Autoria e fonte: La Minna

Mesmo dentro do Brasil, explica La Minna, muita pesquisa precisa ser feita antes de representar certas realidades, pois são muitas em um país tão grande. Por esse motivo, inclusive, ela sugere que a ilustração tem um papel educativo, uma vez que é acessível a muita gente. “Nem todo o mundo consegue consumir um conteúdo em texto, por exemplo, mas ilustrações são simples de entender e são abertas à interpretação, então as pessoas acabam conhecendo mais sobre outras realidades através delas”, conta.

De qualquer forma, ela reforça a importância de se valorizar a cultura artística brasileira, algo que é pouco incentivado na educação formal, dentro da universidade. “Em design, não estudamos nada sobre o Brasil ou mesmo sobre algo que vá além da Europa ou Estados Unidos. Mesmo sobre Ásia e África, que são regiões riquíssimas culturalmente, se saber muito pouco. Alguém que quer aprender sobre a arte e cultura nesses locais tem que buscar por conta.”

O domínio da educação eurocentrada, em um país com heranças coloniais tão marcadas como o Brasil, não é mera coincidência. Sendo assim, o resgate de nossa cultura múltipla é de vital importância para que se valorize mais o que temos por aqui. La Minna é uma das várias artistas abraçando essa responsabilidade; nós, do outro lado, como consumidores, precisamos fazer o mesmo.

As ilustrações de La Minna podem ser encomendadas através de seu LinkedIn ou Instagram.

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