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Desastres Naturais, ou seja, fenômenos derivados de mudanças do ciclo da Terra, fazem parte da geodinâmica terrestre e da natureza do próprio planeta. No Brasil, esses fenômenos tendem a ocorrer em grande escala, também, devido à dimensão territorial do país. No entanto, a ocorrência desses episódios nos últimos meses tem chamado atenção, não somente pelas consequências desastrosas que afetam diretamente a população, mas também pela quantidade e variação dos tipos de desastres ou desequilíbrios ambientais; que vão de um extremo ao outro.

Desde outubro, início da época chuvosa no Brasil, foram registradas mais de 200 mortes por consequência das águas em seis estados do país. Nesse mesmo curto período de tempo, o calor extremo foi a maior adversidade. Em Luiz Gonzaga (RS), por exemplo, a temperatura chegou a ultrapassar os 42 graus na região das Missões; em média, durante o verão no município, a temperatura máxima é de 27 graus.

Para melhor compreensão da alta temporada de desastres naturais e de tipos opostos, é preciso entender o que são e o que causam esses eventos. Por essa razão, o journal48 conversou com o climatologista José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) – unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI).

OS FENÔMENOS NATURAIS

ENCHENTES

Segundo Marengo, as enchentes são definidas como “a elevação do nível d’água no canal de drenagem, devido ao aumento da vazão, atingindo a cota máxima do canal, porém, sem extravasar”. A consequência disso é que um leito natural, seja ele rio, lago ou córrego, atinge um volume de água superior ao que pode suportar.

Em cidades e municípios, esses eventos são consequência da ausência de planejamento urbano, ocupação de áreas inadequadas, e do desmatamento e asfaltamento em larga escala, podendo gerar, ainda, inundação de residências e vias públicas, perdas materiais – quando atingem áreas residenciais – e doenças como a malária, hepatite A, febre amarela, leptospirose, entre outras.

ALAGAMENTOS

Ainda de acordo com Marengo, alagamentos são definidos como “um acúmulo momentâneo de águas em determinados locais, devido a deficiência no sistema de drenagem”, levando a um escoamento superficial concentrado, cobrindo uma pequena parte da planície.

Os alagamentos têm relação com a redução da infiltração natural nos solos urbanos. E, assim, podem ser provocados pela impermeabilização do solo e pavimentação de ruas, reduzindo a superfície de infiltração e desmatamento de encostas.

Imagem da Defesa Civil de São Bernardo do Campo, em São Paulo, de 2011, para retratar alguns desiquilíbrios ambientais em áreas urbanas. Mostra, em forma de desenho gráfico, uma área urbana com desníveis naturais na planície. Neles, a água se acumula e gera situações diferentes: a normal, que não atinge casas; a enchente, que significa o transbordamento e afeta algumas residências; e a inundação, que é o transbordamento excessivo e atinge residências de forma geral.
(Foto: Defesa Civil de São Bernardo do Campo/SP, 2011).

ESTIAGEM

As estiagens são conhecidas como “um período prolongado de baixa pluviosidade, ou sua ausência, no qual a perda de umidade do solo é superior à sua reposição”, diz José Marengo . Ou seja, são eventos resultantes da ausência ou redução de determinada quantidade de chuvas, podendo também ser efeito do atraso em sua chegada. Em geral, a estiagem se refere a queda no volume de chuvas, comprometendo reservas de água, além de causar prejuízos à agricultura e à pecuária local.

SECAS

Por outro lado, o fenômeno extremo oposto, as secas, são consequência da “ausência prolongada, escassez acentuada ou fraca distribuição de chuvas em determinada região, o que provoca grave desequilíbrio hidrológico”. Diferentemente da estiagem, esse desequilíbrio provocado pelas secas ocorre de forma crônica, atingindo diretamente os sistemas ecológico, econômico, social e cultural – todos vulneráveis à redução das chuvas.

TRAGÉDIAS “NATURAIS” NO BRASIL

Desde o fim dos anos 80, nunca se viu com tamanha frequência e intensidade tantas tragédias no Brasil, como as vividas recentemente. Somente nos meses de janeiro e fevereiro, foram registradas 48 mortes no estado de São Paulo, 27 na Bahia e 26 em Minas Gerais.  Somado a isso, a tragédia mais recente, em Petrópolis, ultrapassou o número de 200 mortes.

Além desses casos, também ocorreram duas mortes no Sergipe e outras duas no Espírito Santo, e estados como Pará, Maranhão e Tocantins, sofreram com as consequências das cheias que, por sua vez, atingiram parte considerável da população, que foi obrigada a deixar suas casas.

Foto de uma avenida complatamente inundada, em São Paulo. No centro, em destaque, um pequeno bote salva-vidas está sendo conduzido a remo por dois agentes, que vestem coletes vermelhos. Eles estão acompanhados de um terceiro homem, que veste um colete amarelo e parece ser um cidadão. No fundo da imagem, estão carros e caminhões, alguns deles parcialmente cobertos pela água; outros parecem ser caminhões de resgate.
(Foto: Governo do Estado de São Paulo)

Não distante, cerca de 413 municípios no Rio Grande do Sul decretaram estado de emergência. Isso por consequência da forte estiagem na região, segundo a Defesa Civil. A situação, que se agrava desde o segundo semestre de 2019, obrigou as cidades do Sul a adotarem medidas intensas como, por exemplo, a adesão de caminhões-pipa e poços artesianos para garantir o abastecimento de água na região.

Já na região Metropolitana de Curitiba, o racionamento de água se arrastou entre março de 2020 e janeiro de 2022, inclusive, necessitando implantar o rodízio no fornecimento de água potável, que atingiu cerca de 3,6 milhões de pessoas no estado paranaense.

O CATALISADOR DAS CALAMIDADES CLIMÁTICAS NO PAÍS

Como observado até aqui, nos últimos tempos, catástrofes naturais têm ocorrido com enorme frequência no Brasil. Porém, o que tem chamado a atenção são as características desses fenômenos: ao mesmo tempo em que o volume recorde de chuva assolou a região de Petrópolis, o extremo oposto atingiu a região sul, com as secas.

Em partes, esses eventos são motivados pela decorrência de outro fenômeno, chamado “La Niña”, que consiste em um resfriamento atípico das águas do Pacífico. Sendo assim, a tendência é de que em regiões como no Nordeste e Norte do país, ocorra maior volume de chuvas, enquanto na região Sul, o contrário.

Ainda que La Niña seja responsável pelo aumento das chuvas no Norte e Nordeste, e diminuição ou mesmo as secas no Sul, o fenômeno não contribui com a variabilidade. Segundo o climatologista José Marengo, “La Niña tem a ver mais com o volume de chuva acumulada e não com a variabilidade das chuvas”, ou seja, não podemos atribuir os extremos de chuva (muito dela em poucas horas) à La Niña.

Por outro lado, há relação maior com o aquecimento global e a influência humana nos episódios recentes, apesar de não ser possível atribuir o extremo volume de chuvas e sua frequência a ele.

“O aquecimento global depende, entre outros fatores, do aumento nas emissões de gases de efeito estufa, devido às atividades humanas. Isso seria responsável pela tendência ao aumento de extremos. Por exemplo, mais chuvas intensas concentradas em poucos dias, e períodos secos e quentes (inclusive com ondas de calor) entre os períodos chuvosos.  Porém, ainda não é possível atribuir um extremo chuvoso isolado ao aquecimento global”, diz o especialista.

Além disso, a mudança da forma em que os seres humanos se aproveitam da terra, como o desmatamento e a urbanização, pode contribuir para a ocorrência desses desastres.

“O risco de desastres vai depender da combinação de extremos de chuva com o fato de populações vulneráveis morarem em áreas expostas a risco de enchentes ou inundações (em localidades próximas a córregos ou rios), ou a deslizamento de terra (em áreas de morro, como em Petrópolis-RJ). Estes desastres são deflagrados pela chuva intensa”, explica Marengo.

O QUE O FUTURO NOS RESERVA?

Recentemente, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) divulgou um novo relatório. Nele, revelaram-se mudanças extremas em relação ao clima no planeta nas próximas décadas. Diante disso, há a necessidade de não somente aumentar os veículos de conscientização sobre os riscos, mas também diminuir a desigualdade entre as medidas de prevenção e adaptação necessárias; em especial, em países de menor renda.

Porém, ainda há muito o que se fazer até alcançar tal objetivo. Na visão de José Marengo, por exemplo, “é preciso primeiro reconhecer que os impactos das mudanças climáticas já estão ocorrendo”. Dessa forma, entende-se que as ações implementadas de maneira correta podem, enfim, trazer benefícios e reduzir os riscos climáticos. Segundo ele, ações práticas que poderiam contribuir a curto e longo prazo precisam ser incorporadas de forma cuidadosa.

“Entre essas ações, como exemplo, está a construção de muros marítimos, que podem proteger, em curto prazo, as áreas costeiras do avanço do mar. Por outro lado, durante as obras, podem destruir ecossistemas inteiros, como recifes de coral. A má adaptação pode ser evitada com planejamento e implementação de ações de adaptação flexíveis, multissetoriais, inclusivas e de longo prazo, com benefícios para muitos setores e sistemas”, finaliza o pesquisador.

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Donizete
Donizete
5 meses atrás

Foca muito bem o tema, discorre de maneira elucidativa…. educativa….
Aprendi.
Essa a conclusao.