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Um choro em espaço público, uma palmada. Uma frustração, um pedido de silêncio. Um erro, um castigo. Quando teve a primeira filha, Isabelli Gonçalves, 24 anos, percebeu um incômodo e inquietação sobre os comportamentos que eram considerados naturais nos ensinos da educação tradicional. Mãe de Helena e Lívia, ela trilhou o caminho para se tornar educadora parental através do pequeno aborrecimento que sentia ao reproduzir atitudes em seu dia a dia.

Em uma tentativa de livrar a filha, que tinha em torno de um ano e dois meses, de perigo, ela dava leves batidas em suas mãos. “No fim das contas, eu acabava me sentindo culpada por fazer aquilo e as pessoas à minha volta diziam ‘não, mas tem que fazer assim’”. Com a chegada da segunda filha, percebeu que educar da maneira tradicional se tornou inviável. Atualmente, Isabelli compartilha aprendizados nas redes sociais.

A educação positiva é uma abordagem que procura melhorar o relacionamento entre pais, filhos e adultos que lidem com as crianças por meio do respeito, empatia, autonomia, disciplina e resolução de problemas. “É uma disciplina que será ensinada através do exemplo do encorajamento, do apoio, do suporte familiar. É para que estejamos abertos a escutar os nossos filhos, ter uma escuta mais ativa, uma escuta presente”, explica a educadora parental.

Mulher de 24 anos, cabelos ruivos lisos e piercing no septo, com duas crianças no colo e fundo branco.
Isabelli Gonçalvez é formada em odontologia, mas segue o caminho como educadora parental. Foto: Reprodução/Instagram

Em 1981, Jane Nelsen publicou o livro “Disciplina Positiva”, em um trajeto muito influenciado na filosofia e nos ensinamentos de Alfred Adler e Rudolph Dreikurs. Através da abordagem Adleriana, ela gerou frutos na educação de seus sete filhos, 22 netos e nove bisnetos.

Lá atrás, para ela, tudo também começou de uma frustração. “Depois da escola, havia a continuação das batalhas sobre o dever de casa e as tarefas domésticas. Meu ‘saco de truques’ incluía ameaças, gritos e palmadas. Esses métodos pareciam terríveis (para mim e meus filhos) e não funcionavam. Eu estava ameaçando, gritando e batendo pelos mesmos comportamentos repetidamente”, escreveu em um artigo. Com os novos aprendizados, então, ela passou a compartilhar essas ideias com outras pessoas, em pequenos grupos de estudo de pais, com amigos e vizinhos.

Andressa Eberhardt, 30 anos, relatou uma experiência parecida, em uma conversa virtual: “Eu decidi que não era justo não compartilhar com outras pessoas que a disciplina positiva tenha mudado a minha relação com a minha filha e com os outros também”, disse. Também criada na educação tradicional, ela é mãe de Luna, educadora parental e produz conteúdo sobre educação positiva para as redes sociais.

Com a gravidez da filha, ela entrou em contato com leituras sobre maternidade e decidiu, então, que nunca iria educá-la na base da violência. “Quando crescemos no meio desse núcleo, nós pensamos que isso é o natural”, contou.

SEMENTE PARA OS JOVENS

Isabelli tem um milhão de seguidores no TikTok e 308 mil no Instagram. Apesar de produzir conteúdo sobre a educação positiva para pais e responsáveis por crianças, boa parte dos seus seguidores, especialmente no TikTok, são jovens entre 14 e 17 anos. “Eu vejo isso como se eu tivesse plantando uma sementinha para a geração futura”, diz.

Apesar do TikTok contar com 32,5% de usuários entre 10 e 19 anos, em um total de cerca de 1,1 bilhão de usuários ativos mensais, a presença de adultos não é nula. Jovens adultos entre 20 e 29 anos representam 29,5%; entre 30 e 39 anos, 16,4%; 40 e 49 anos, 13,9%; e maiores de 50 anos são 7,1%, segundo dados da Comscore. “Tem adultos no TikTok, mas acredito que eles não buscam esse tipo de conteúdo”, revela Andressa, que acumula mais de 468 mil seguidores no TikTok e mais de 10 mil no Instagram.

Mulher ruiva com menina no colo segurando um microfone sobre a mesa.
Sem muitas expectativas quando voltou a produzir conteúdo para a internet, Andressa Eberhardt se surpreendeu com os números que conquistou. Foto: Reprodução/Instagram

Andressa tem um público formado por mães, adolescentes e pré-adolescentes. Ela argumenta que seu conteúdo alcança um público majoritariamente jovem pelo apelo de suas falas sobre respeito a privacidade, que geram uma identificação. Muitos relatam o desejo de terem vivido uma educação diferente, serem compreendidos, melhorarem suas relações com seus responsáveis e aprenderem a lidar com seus sentimentos. “Muitos adolescentes falam: ‘agora eu vejo as crianças diferente, trato meu irmão diferente, trato minha prima diferente, se um dia eu for mãe, quero ser que nem a tia’. Isso aquece muito o coração”, conta ela.

CUIDAR DE QUEM CUIDA

No passado, Andressa teve um canal pessoal no YouTube, mas desistiu por sofrer diferentes ataques quando passou a falar de maternidade. Muitas das críticas eram direcionadas à filha: acreditavam que, por aplicar uma educação baseada também no respeito, seria desrespeitada pela filha. Outros, ainda, apostavam em xingamentos direcionados à uma criança. Ela deixou de gravar vídeos por volta de 2017 e agora, ainda que mais preparada para lidar com a produção de conteúdo para a internet, continua a receber críticas e sofrendo ameaças.

Para Isabelli, no entanto, os críticos nem mesmo entendem seus ensinamentos. Eles creem em uma ideia que, apesar de errônea, é comum: confundir a permissividade e negligência com a educação positiva. “Educação positiva é o meio do caminho entre a firmeza e a gentileza. Eu terei a firmeza na hora de estabelecer essas conduções porque a criança precisa de um guia”, afirma.

Ela aponta para dois perfis mais comuns de críticos: o homem e a mãe. No caso das mães, existe um sentimento de culpa e dúvida ao entrar em contato com os conteúdos. Além desses, Andressa acrescenta à lista o perfil da mulher na casa dos 50 anos. “As pessoas mais novas têm essa melhor aceitação ao novo, ao diferente. Elas são mais adaptáveis. Agora, as pessoas mais velhas foram criadas em outro tempo, elas têm mais dificuldade em mudar de pensamento, de perspectiva”, explica.

De acordo com Thiago Queiroz, 39 anos, “são essas pessoas que passaram por uma vivência mais violenta e desejam manter esse tipo de violência com seus próprios filhos”. Ele é pai de Dante, Gael, Maya e Cora, escritor, palestrante, educador parental, psicanalista em formação e criador do site e canal no YouTube Paizinho, Vírgula!.

Sobre a repulsa à educação positiva, é necessário compreender as marcas deixadas pela educação tradicional, violenta e punitiva, o que exige um processo particular constante, uma quebra de ciclo e um rompimento de comportamentos socialmente aceitos.

Homem de cabelos curtos, óculos e braços tatuados segurando uma criança no colo.
Thiago Queiroz, autor dos livros “Abrace seu Filho” e “A Armadura de Bertô”. Foto: Reprodução/Paizinho Vírgula!

A aplicação da educação positiva, não violenta e respeitosa exige tanto a presença física quanto emocional do responsável. Esse trajeto demanda um “autoensino” e a busca por um bem-estar psicológico para lidar com a carga de cuidar de outro ser humano. “A educação positiva prega essa autoeducação antes da educação”, conta Juliana Franco.

Mãe de três filhos, pediatra há 22 anos, educadora parental, pós-graduada em neurociências do comportamento e em nutrição materna infantil, é co-fundadora da Escola da Educação Positiva. A instituição forma educadores parentais, mudando o olhar dos profissionais para um olhar mais consciente, visibilizando a criança e tendo como princípio primário a equidade, a criança com igual valor e trazendo à frente o olhar da criança sobre cada situação.

Abdicar do ciclo de ‘cuidado violento’ é entender também quais são suas dores. “Esse cuidador inicialmente também foi uma criança não visibilizada, não amada incondicionalmente, não considerada de igual valor. Então ele vem para uma criação dos filhos já com uma criança interna ferida”, complementa a pediatra.

“A educação positiva”, para ela, “também se refere à importância de cuidar de quem cuida. Cuidamos desse cuidador para ele poder verdadeiramente educar essa criança. Toda educação vem de uma autoeducação”, completa.

REPENSAR AS MASCULINIDADES

A educação convencional é também um sintoma da sociedade machista em que vivemos. “Uma sociedade que ainda põe nas mulheres a responsabilidade de se informar sobre criar pessoas”, enfatiza Juliana Franco. “A responsabilidade também é do pai. A responsabilidade do pai não é ser rede de apoio, o pai não é ajuda, o pai é responsabilidade”.

“O mundo patriarcal, com hierarquia de poder, o capitalismo, gera uma disputa, uma competição. Que voltemos realmente à nossa natureza humana, que é tão compassiva, tão empática, tão solidária, que enxerga o outro e quer cada vez mais estar num sistema igual para que todos, no qual todos tenham iguais oportunidades e condições de vida”, afirma a pediatra.

Thiago Queiroz conheceu a educação positiva através de uma vontade de sair da curva marcada na sua infância. Ele tinha o desejo de construir uma relação de respeito, amizade, vínculo seguro e saudável com seu primeiro filho, o Dante. “Tudo nasceu desse lugar onde queria falar sobre a minha vivência enquanto pai, porque era raríssimo encontrar um falando sobre essas coisas, há nove anos. Hoje ainda é difícil, mas naquela época era basicamente eu e mais umas duas ou três pessoas apenas”, contou.

A vivência do homem em busca da ‘masculinidade’ é carregada de naturalização da violência e da agressividade. Ela rejeita a sensibilidade necessária para estabelecer o acolhimento emocional na criação dos filhos. O homem é ensinado para ser o mais forte, o mais bravo, aquele que não chora e é ausente de fraquezas. Todas essas ideias geram novas fragilidades:

“Toda essa construção frágil, de alguém super vulnerável, mas que não pode parecer vulnerável, vem na vida adulta em forma de resistência”, diz Thiago. “Precisamos desconstruir isso tudo porque não tem como falarmos de paternidade presente, afetiva e respeitosa sem falarmos sobre essa desconstrução da masculinidade”.

Ele conta com um grande público feminino, e aponta o problema, em acordo com Juliana, como sistemático de uma realidade machista que coloca nas mulheres a responsabilidade sobre a criação dos filhos. Ele vê o registro de suas experiências como uma forma de diálogo para alcançar o público masculino. Por isso, ele criou o podcast Tricô de Pais, em que conversa com outros pais. “Ali conseguimos ter uma audiência que é majoritariamente masculina, que nos ouve justamente por causa dessa troca entre homens”.

NOVOS OLHARES AO PASSADO

Isabelli Gonçalves guarda uma lembrança nítida em sua cabeça: todas as noites antes de dormir, até completar 10 anos, seu pai deitava com ela e com a irmã para ler histórias de livros infantis antes de dormir e cantava até suas filhas caírem no sono. Ele não trancava a porta as mandando ir dormir ou se importava em dedicar o momento às filhas, como enfatiza.

“Para mim, esses dois pontos foram importantes para quebrar os ciclos de violência que eles reproduziam sem querer e que eu acabaria reproduzindo com as minhas filhas. Acredito que foi importante para eu buscar mudar e, de repente, melhorar o que eles já haviam melhorado um pouquinho da criação deles. E esses momentos de conexões só me deram mais certeza do que eu queria ser pras minhas filhas”, conta Isabelli.

Aprender sobre educação positiva permite uma reflexão sobre a própria infância e as tentativas anteriores de quebrarem os ciclos de violência. Apesar de Isabelli se sentir privilegiada, seus pais não conheciam a educação positiva. Com a quebra desse ciclo anterior, o que era natural deixou de ser visto como natural e abriu espaço para uma mudança de perspectiva.

“Não culpo eles porque foi a forma que aprenderam. Foi a forma que eles acreditavam dar certo, mas, ao mesmo tempo que reproduziam esses padrões, eles batiam muito pouco comparado ao que eles apanhavam na infância. Eu percebo que foi uma mudança que eles quiseram instaurar na casa deles, na família deles”, aponta Isabelli.

Sobre isso, Juliana completa: “Hoje temos provado que os problemas que temos na vida adulta vieram de experiências diversas da infância. Então, se não cuidarmos da infância, não cuidaremos do futuro. Continuaremos nesse mesmo lugar cada vez mais difícil de se viver, mais difícil de conviver com mais violência, com menos percepção do outro, com menos amorosidade”, reflete.

Mulher de cabelos loiros, camisa azul, abraçada a uma criança e um adolescente.
Juliana Franco defende a infância há cinco anos. É especialista emocional e palestrante de disciplina positiva e criação com apego. Foto: Reprodução/Instagram

EDUCAÇÃO SEM VIOLÊNCIA É DIREITO

Apesar de normalizado quando ocorre com crianças, a violência é uma violação dos direitos humanos fundamentais. Os maus-tratos sofridos na infância e adolescência são, geralmente, invisibilizados por serem praticados, em sua maioria, no âmbito familiar. No primeiro semestre de 2021, foram 50.098 denúncias de violência contra crianças e adolescentes. Desse total, 40.822 (81%) ocorreram na casa da vítima. Os dados são do Disque 100, um dos canais da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (ONDH/MMFDH).

A mãe aparece como a principal violadora, com 15.285 denúncias; seguida pelo pai, com 5.861; padrasto/madrasta, com 2.664; e outros familiares, com 1.636 registros.

“A educação positiva prega o respeito e igual valor da criança, a visibiliza como um ser dependente do cuidador e que precisa ser provido em suas necessidades básicas para ter um plano de desenvolvimento mental, intelectual, físico, motor e cognitivo”, explica Juliana.

No Brasil, crianças e adolescentes são protegidos por normativas jurídicas e institucionais que garantem, por lei, seus direitos humanos fundamentais. O artigo 227 da Constituição Federal assegura à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, “o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”.

Também, o Artigo 5º do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), lei federal 8069/90, dispõe que “nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais”.

A lei n° 13.010 de 2014, conhecida como Lei da Palmada, que alterou o artigo 18 do ECA, não só proíbe o uso da violência como reforça o direito de crianças e adolescentes serem educados e cuidados sem o uso de castigos físicos, de tratamento degradante ou cruel.

Além da violência se tornar um método de educação não viável, também contrapõe à lei. Pessoas marcadas pela educação violenta têm dificuldade de quebrar o ciclo. “Tem o tipo de pessoa que acha que, porque viveu isso, chegou a vez de reproduzir e acha injusto não poder fazer”, reflete Andressa Eberhardt.

O desafio ainda pode se tornar mais difícil com as barreiras de classe e da desigualdade social. A alternativa vem, afinal, de um ponto de partida que ainda não abarca a todas as realidades. São os passos curtos que buscam ultrapassar o sistema de violências. “Sabemos quantas crianças invisíveis estão expostas a tudo isso. Mas precisamos começar de algum lugar, não podemos desanimar”, finaliza Juliana.

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