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É comum ver a terapia familiar e de casal presentes em diversas séries e filmes da indústria cinematográfica, como é o caso das séries You e This is Us, e do filme História de um Casamento, por exemplo. No entanto, essas modalidades terapêuticas são bem mais comuns nos Estados Unidos do que no Brasil, onde os estigmas e tabus prevalecem sobre os benefícios do tratamento.

Frequentemente, as pessoas deixam de procurar ajuda psicológica por não quererem parecer fracas ou loucas. Isso acontece por vários motivos, mas, sobretudo, por causa da falta de entendimento por parte da sociedade de que os cuidados psicológicos são tão importantes quanto os cuidados com a saúde física. Ao sentir uma dor de barriga persistente, por exemplo, é comum procurar um médico rapidamente para tratar o problema. Mas, quando o sintoma é emocional, não.

“Muitas pessoas acreditam que a psicoterapia serve só para pessoas com algum problema mental. Outras não querem se sentir vulneráveis. Existe, ainda, quem não têm acesso ao tratamento devido ao poder aquisitivo. Quem consegue olhar para suas próprias dores destoa do comum e pode ser visto pelo outro com estranheza”, afirma Ângela Domingos da Silva, psicóloga e mediadora de conflitos.

COMO FUNCIONA A TERAPIA FAMILIAR

Nesse tipo de tratamento, o processo terapêutico é do grupo familiar e não individual, no qual os componentes do grupo conversam entre si e compartilham sentimentos e vivências. Ele é indicado em casos de grupos familiares que possuem algum tipo de disfunção ou conflito.

A indicação para terapia familiar também pode partir de alguma necessidade de um membro da família, como a partir do caso de atendimentos infantis, transtornos alimentares e mentais e de algumas doenças. Isso porque a família está inevitavelmente inserida nesses cenários.

“A pessoa que vive com aquela família é influenciada por ela e influencia o meio em que está inserida. Então, além das questões internas individuais, é a função do terapeuta buscar identificar aspectos causadores de sintomas que refletem na família e no indivíduo”, comenta Ângela.

A terapia familiar é realizada por mais tempo que a individual e cada sessão geralmente costuma ter uma hora e meia de duração. A escolha sobre quem vai participar depende de qual é a demanda para esse tipo de tratamento e de qual maneira cada pessoa influencia no ambiente em família, como parentes importantes ou que deixaram algum tipo de trauma. Em conversa com os pacientes em potencial, o profissional poderá entender quem está envolvido nas questões familiares ou, ainda, conseguirá pedir a participação de algum outro membro da família no decorrer do tratamento.

A psicanalista Renata Rodrigues Arnoni conta que cada família é única e possui particularidades. Ela afirma ser preciso entender a organização e as relações hierárquicas instituídas.

“Cada membro vai assumindo um lugar dentro da família. Então, por exemplo, o pai assume uma função – ainda que não seja a paterna – a mãe, os filhos e outros parentes que morem juntos, como um avô, tio, sobrinho, cunhado, assumem um papel dentro da hierarquia familiar e essa é uma questão muito importante de ser entendida por que a partir do momento que você entende o lugar que se ocupa na família, você entende um pedacinho de você e do seu comportamento”, completa Renata.

BENEFÍCIOS DO TRATAMENTO

É importante entender que a terapia é um ambiente seguro, onde a comunicação é essencial para a resolução de conflitos. O processo terapêutico trata não só as consequências, mas as causas dos problemas familiares, de modo a dar um novo significado ao ambiente em família. O diálogo entre as pessoas é muito trabalhado e muitas vezes coloca à tona situações que impactam na relação com o presente.

“Não existe uma verdade absoluta, existe a verdade de cada um, como cada pessoa compreende as situações de maneiras diferentes. Quando uma pessoa entende como o outro se comunica e que às vezes o que foi entendido é diferente do que o outro quis dizer, isso se torna algo muito importante e que muda a relação das pessoas.”, diz Renata.

A psicanalista afirma que, para o sucesso do tratamento, é essencial o comprometimento das pessoas no processo psicoterapêutico, além da construção de um vínculo importante com o terapeuta e a identificação com a abordagem do profissional.

TERAPIA DE CASAL

terapia de casal
Foto de Freepik

Semelhante à familiar, a terapia de casal não tem foco no indivíduo em si mas na dinâmica do relacionamento. Esse tipo de tratamento tem o objetivo de contribuir para o aumento da satisfação conjugal ou para a aceitação do processo de separação.

A psicoterapeuta de casais Mariana Galuppo Gomes de Souza diz que devido a terapia de casais ter uma característica resolutiva, ela é indicada tanto para casais que vivenciam conflitos, quanto para o desenvolvimento da relação. Nessa modalidade, cada profissional estabelece sua forma de trabalho em relação à duração ou quantidade de sessões semanais e aos métodos e técnicas a serem utilizadas.

“Precisamos, a princípio, que o casal compreenda que ali estão dois seres individuais, com sentimentos e necessidades próprios que influenciam na dinâmica da relação, mas, que os tornam ativos tanto no processo daquilo que entendem como problema, quanto no processo terapêutico para a resolução”, afirma Mariana.

Na terapia de casal, há a intervenção do terapeuta através do diálogo e de reflexões para reestruturar distorções de pensamento e criar habilidades essenciais para uma interação mais saudável. Os benefícios são para o casal e individuais também, uma vez que a psicoterapia é um exercício de autoconhecimento e de mudanças comportamentais.

Sobre a abordagem possível nesse tipo de tratamento, Mariana fala que cabe a cada casal buscar aquilo que faz mais sentido à sua necessidade e onde se sente confortável.

“Qualquer casal em um relacionamento que queira se desenvolver enquanto unidade conjugal ou mesmo trabalhar com um possível processo de separação/divórcio de forma amigável pode buscar a psicoterapia de casal. Não se trata do estado civil, mas sim do interesse em construir e estar em uma boa relação”, finaliza.

TABUS E ESTIGMAS SOCIAIS

Em plena era da informação, a terapia, de modo geral, ainda é muito estigmatizada na sociedade; isso porque, muitas vezes, quem a busca como tratamento é relacionado à “loucura”.

Isso é reflexo de uma não tão antiga política higienista que retirava do convívio social todos aqueles que não eram ‘normais’ ou fora dos ‘padrões’ e encaminhavam aos manicômios. Lugar onde estavam psicólogos e psiquiatras, associando, assim, o cuidado com a saúde mental como recurso para ‘gente louca’”, afirma Mariana Galuppo.

A psicóloga Ângela Domingos concorda e diz que “esses estigmas ainda fazem parte da nossa cultura e a sociedade tende a excluir o que é diferente do que se entende como normal. Isso acontece com diversos grupos sociais, não só em relação a transtornos mentais. O importante é entender que a terapia é uma forma de autocuidado e que todo mundo precisa estar confortável no ambiente terapêutico”, completa.

Finalmente, as profissionais julgam necessário compreender que a atuação do psicólogo também está presente em diferentes esferas no dia a dia.

“Os profissionais de psicologia estão em diversos ambientes, não apenas nos hospitais. Estamos em centros de saúde, empresas, nos serviços judiciais, nas escolas, ou seja, a psicologia está próxima a qualquer um de nós. O cuidado com a saúde mental não é coisa de “gente louca” e sim de gente que busca evoluir enquanto ser humano”, conclui Mariana.

*A eficiência dos tratamentos citados nesta reportagem depende da busca por um profissional formado em psicologia e que seja especializado em atendimento familiar e/ou de casal.

**A psicanalista Renata Rodrigues Arnoni recomenda lugares para busca de atendimentos sociais na cidade de São Paulo. Você encontra a relação ao clicar aqui. Em outras cidades, informações sobre esse tipo de serviço podem ser buscadas em órgãos oficiais de saúde.

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