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Quem não ama sentar no sofá de casa ou na poltrona do cinema e aproveitar aquele filmaço?

Mas e se, por um instante, não fosse possível ver as imagens ou ouvir os sons e as falas do filme? Isso causaria um incomodo imenso, pois aquele que seria um momento de diversão e entretenimento se transformaria, infelizmente, em uma experiência frustrada e incompleta.

Isto é o que ocorre com pessoas surdas, cegas ou com algum tipo de baixa visão quando não há acessibilidade nos conteúdos audiovisuais disponibilizados no cinema ou nas plataformas de Streaming.

Vale lembrar que no Brasil, de acordo com o IBGE, no Censo realizado em 2010, existem aproximadamente 10 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência auditiva, destes, pelo menos 2,7 milhões são surdos profundos (não escutam nada); e 6,5 milhões de pessoas cegas e com baixa visão, sendo 582 mil pessoas que são incapazes de enxergar (cegas) e 6 milhões com baixa visão.

Mas por quais meios uma obra audiovisual se torna acessível para todo esse público?

As principais ferramentas que transformam um material audiovisual acessível são: “a audiodescrição, que é uma narração voltada para o público com deficiência visual, a janela de Libras, que é Língua Brasileira de Sinais, e a legenda para surdos e ensurdecidos”, esclarece Mauana Simas, à época sócia-fundadora da Todos Nós Filmes, em entrevista a respeito do tema ao programa Mídia em Foco, da TV Brasil.

A IMPORTÂNCIA DAS LEGENDAS E DA JANELA DE LIBRAS PARA OS SURDOS

Legenda para quem não ouve, mas se emociona”, esse é o lema da Legenda Nacional, projeto idealizado pelo pernambucano Marcelo Pedrosa, surdo oralizado, arquiteto e consultor em legendas, que luta pelo direito à acessibilidade dos surdos nos conteúdos audiovisuais no cinema e também nas plataformas de Streaming. Pedrosa nasceu ouvinte, mas ficou surdo com um ano de idade, depois de contrair meningite.

A batalha pela inserção de legendas em português em filmes nacionais começou em 2004, quando Marcelo foi convidado por um grupo de amigos que são produtores culturais a ir ao CINE-PE, festival audiovisual, em Recife, para assistir filmes brasileiros, mas se sentiu excluído naquela ocasião. “Eu perguntei se tinha legenda, mas não tinha”, reclama.

“A maioria das pessoas que não tem algum tipo de deficiência não sente na pele essa dificuldade, não sente falta e quem precisa cobrar somos nós, pessoas com deficiência”, completa.

Ele explica que um dos objetivos do projeto também é a conscientização e sensibilização da sociedade a respeito da acessibilidade dos surdos aos conteúdos audiovisuais. “A minha luta é para vender a ideia. A campanha é uma iniciativa pessoal, não é uma ONG, não é uma empresa. A divulgação é feita no boca a boca ou de mão em mão (Libras)”.

Marcelo é um homem branco, de cabelo negros, usa barba cheia e grisalha. Está sorrindo, veste uma camisa preta com os dizeres: Legenda para quem não ouve, mas se emociona.
Marcelo Pedrosa, Idealizador da campanha Legenda Nacional. Foto: Arquivo pessoal (Instagram)

Uma das conquistas do movimento foi a inserção de legendas nos filmes reproduzidos no CINE-PE, por causa da Lei estadual 12.310/2002 que institui o Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura – FUNCULTURA. “Eu entrei com uma ação no Ministério Público de Pernambuco, pois existe uma lei estadual daqui que obriga a inserção de legenda quando há o incentivo financeiro do FUNCULTURA. Como o festival não estava cumprindo a lei, o Ministério Público cobrou”, relembra.

A campanha continua lutando para que haja uma lei federal que obrigue o uso das legendas em filmes nacionais. Inclusive, existe o Projeto de Lei nº256/2007 a respeito do assunto que está em trâmite na Câmara dos Deputados há 15 anos.

AS LEGENDAS DESCRITIVAS X PLATAFORMAS DE STREAMING

À parte das legendas convencionais, o que torna a experiência dos surdos mais acessível aos materiais audiovisuais são as legendas descritivas, que além de incluírem os diálogos, trazem a descrição dos sons que fazem parte do material audiovisual.  Uma outra frente de cobrança é a inserção das legendas descritivas nas plataformas de Streaming, como é o caso da Netflix.

Parte das obras brasileiras que estão disponíveis na plataforma tem legendas convencionais, mas poucas têm as legendas descritivas. “Quando tem legenda descritiva, muitas vezes está com problemas. Por exemplo: [porta abrindo]. Esse não é um som descritivo, é descrito o que está sendo visto. A gente vê a porta abrindo e a porta fechando”, explica Pedrosa. 

A campanha da Legenda Nacional cobra também que as plataformas de Streaming cumpram a NBR 15290, que trata da Acessibilidade em comunicação na Televisão (Legenda descritiva, Audiodescrição e Libras). “Lá na norma há um limite de 32 caracteres por linha (nas legendas). Mas a Netflix, por exemplo, insere 47 caracteres por linha. O que acontece quando se insere essa quantidade de caracteres por linha? O surdo vai olhar mais para a leitura da legenda do que para imagem. Então, seria necessária uma quantidade menor de caracteres possíveis para dar tempo de olhar a cena toda”, critica Marcelo.

Ele explica que a questão da acessibilidade para os surdos a conteúdos audiovisuais é fundamental para uma experiência social aprimorada e completa quando há o uso das legendas descritivas. “A experiência vem com um sentimento de alívio, a gente sente mais segurança, se sente incluído na sociedade e poderia assistir [um filme] junto com os amigos, com a namorada. A legenda é uma forma de inclusão social. Nós participamos muito mais. E quando não tem, ficamos perdidos”.

ONDE ESTÁ A JANELA DE LIBRAS?

Outro recurso de acessibilidade é a Janela de Libras, muito importante para os surdos que são usuários da Língua de Sinais. Segundo Gleivison Martins, tradutor e intérprete de Libras, há uma grande parcela de surdos que se comunicam exclusivamente pela Língua Brasileira de Sinais e têm dificuldades em ler textos em português.

“A primeira língua deles é a Libras e a segunda é o português. Existem surdos que leem bem o português, mas há uma boa parcela que não tem essa facilidade. Dessa forma, há a necessidade da tradução e interpretação para língua de sinais”, esclarece.

A NBR 15290 também especifica sobre o uso da Janela de Libras nos conteúdos audiovisuais, mas esse recurso praticamente não é utilizado nem nas salas de cinema e nas plataformas de Streaming. Marcelo explica que não há uma regulamentação específica principalmente para cobrar as plataformas de streaming a respeito do uso das legendas descritivas e janelas de Libras.

Atualmente, a única plataforma de Streaming que utiliza a Janela de Libras aqui no Brasil é a PingPlay, do grupo ETC Filmes. Lançada em março de 2021, ela oferece conteúdos com recursos de acessibilidade como a audiodescrição, legendas descritivas e, principalmente, a LIBRAS, recurso praticamente inexistente nas plataformas mundiais. “Queremos promover a inclusão levando entretenimento audiovisual para essa camada da população, que por vezes carece de opções digitais verdadeiramente inclusivas”, comenta Cássio Koide, CEO da ETC Filmes.

A RELEVÂNCIA DA AUDIODESCRIÇÃO PARA ACESSIBILIDADE DE PESSOAS CEGAS OU COM BAIXA VISÃO

Para pessoas cegas ou com baixa visão um dos principais recursos de acessibilidade a materiais audiovisuais é a audiodescrição.

“Ela é um recurso de acessibilidade comunicacional utilizado para ampliar o entendimento de pessoas com deficiência visual em qualquer evento ou produto onde as informações visuais sejam relevantes para compreensão da obra: cinema, teatro, TV, Exposições, esportes, games, turismo, ou até mesmo em um simples passeio no shopping”, explana o mineiro Gabriel Aquino, pedagogo e consultor em acessibilidade.

Gabriel é cego. Perdeu a visão direita aos oito anos e a esquerda aos 16. A perda da visão esquerda aconteceu de forma gradual, aos poucos. Nesse período, dos oito aos 16 anos, ele começou a sentir as dificuldades diárias para assistir filmes, desenhos e outras formas de entretenimento audiovisuais. “Eu gostava muito de assistir televisão. Daí eu sentava em um banquinho alto perto da TV, bem perto mesmo. Então, todo mundo assistia TV me vendo também”, relembra.

Mesmo com as dificuldades para enxergar, nesse momento de baixa visão, Gabriel assistiu vários filmes, jogava vídeo game e mexia no computador, mas ir ao cinema era mais complicado. “No cinema, eu não tinha a oportunidade de sentar perto. A tela era muito grande, e isso nunca me ajudou a enxergar porque eu tinha campo visual reduzido. Então, a televisão menor para mim era melhor. As pessoas acham que tudo que é maior ajuda a pessoa com baixa visão e não é. Existem vários tipos de deficiência visual”.

Depois dos 16 anos, como já não conseguia enxergar as imagens da TV mesmo de perto, Gabriel passou a sentar longe do aparelho e apenas ouvir. Ele explica que quando só escuta e não visualiza o que está acontecendo, muita coisa não faz sentido, pois as informações ficam incompletas. A partir disso, parou de ter interesse de assistir filmes, ato rotineiro da família na época. “Eu parei, ficava mais no quarto, às vezes escutando rádio e para eles também foi perdendo a graça e deixaram também de ter acesso”.

“Quando uma pessoa com deficiência não está tendo acesso, a família também não está, a gente deixa de dar acesso à pessoa e às pessoas ao redor dela”, diz o consultor em acessibilidade.   

Após ficar um longo período sem ver filmes, Gabriel sentiu vontade de voltar a assistir algumas séries que tinha interesse, mesmo com dificuldade de entender parte do material, já que seria necessária uma narração de tudo que é apenas visual, exatamente o que faz a audiodescrição.

Ele lembra que em uma das séries, para entender melhor o contexto, se valia de um resumo que era feito no início do capitulo ou quando comentava com alguém que assistia a mesma série e contava os detalhes de alguma cena extremamente visual e muito importante para lógica do enredo.

Foi aí que ele percebeu que ter apenas acesso aos recursos auditivos dos materiais audiovisuais o fazia perder muita informação e que era importante também a explanação das partes visuais desses conteúdos, ou seja, a necessidade da audiodescrição.

Gabriel é branco, tem cabelos escuros e lisos, usa barba feita. Está vestindo uma camisa xadrez azul, com branco e preto.
Gabriel Aquino. Foto: Arquivo Pessoal

Seu primeiro contato com a audiodescrição chegou nos tempos de faculdade. Ele começou a participar de um projeto de extensão da PUC Minas, em Belo Horizonte, que se chamava “Cinema ao pé do Ouvido”. O projeto pesquisava a respeito da produção da audiodescrição e eram reproduzidos filmes com o recurso para o público com deficiência visual na universidade.

No começo, houve um estranhamento com o uso do recurso, mas, depois, Gabriel se adaptou à experiência. “Foi evoluindo o meu entendimento e o meu uso da audiodescrição e eu comecei a gostar pra carambra”, explica.

ACESSIBILIDADE NOS STREAMINGS PARA PESSOAS CEGAS

Com relação às plataformas de streaming, Gabriel sempre gostou muito de coisas relacionadas ao cinema e se cadastrou, em meados de 2011, na Netflix, mas não conseguiu navegar na plataforma à época. “Era inacessível pelo teclado com leitor de telas. O meu primeiro contato [com streaming] foi não ter acesso. Foi chegar na porta e perceber que não ia conseguir navegar ali e não assisti nenhum filme”, critica.

Gabriel relata que voltou a assinar a Netflix, por volta de 2017, por causa de uma série brasileira que tinha audiodescrição. Segundo ele, nesse período, a questão da dificuldade de navegação na plataforma já estava bem melhor e acessível. Aquino relembra também que, na época, essa série era a única de toda a plataforma com audiodescrição.

“Eu assinei por causa de uma série, uma temporada. As coisas foram melhorando dali para frente e foram chegando alguns conteúdos, mas demorou muito para coisas ficarem como estão hoje. Não vou falar que tem bastante conteúdo com audiodescrição, comparado com a quantidade de conteúdos disponibilizados na Netflix, ainda é muito pouco”, pondera.

Ele conta que assinou também outras plataformas, mas os conteúdos com audiodescrição ainda são poucos, se comparados com os materiais que não têm.

“Muitas coisas famosas [filmes/séries] não têm audiodescrição. Fico sempre querendo acompanhar o que todo mundo está assistindo, a gente quer participar das conversas, do que está na moda, o que está rolando”.

O QUE DIZ A PIONEIRA DOS SERVIÇOS DE STREAMING

Em nota, a Netflix Brasil explica o que tem feito para melhorar o acesso de pessoas com deficiência visual e auditiva à plataforma:

“Como um serviço que alcança mais de 190 países, temos um grande incentivo para garantir que nossos atuais e futuros assinantes consigam usar a Netflix facilmente.

E, como queremos oferecer um bom serviço a TODOS os assinantes, a acessibilidade é muito importante para nós. Não é algo extra, mas sim um aspecto que faz parte do DNA dos nossos produtos e da nossa tecnologia desde o começo.

É por isso que temos recursos como sistemas de audição assistida, audiodescrição, controles de brilho, atalhos de teclado, controles de velocidade de reprodução, leitores de tela, legendas, legendas ocultas e comandos de voz (todos os detalhes sobre esses recursos estão aqui).

Queremos ter a melhor solução de acessibilidade entre todos os serviços de entretenimento por streaming do planeta. É claro que sempre podemos avançar e estamos aprimorando constantemente a acessibilidade em nosso serviço”, diz a nota, na íntegra.

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Marcelo Pedrosa
4 meses atrás

Que matéria super necessária! Vamos divulgar sempre! Obrigado!

Dannúbia Nascimento
Dannúbia Nascimento
4 meses atrás

Sensacional! Nada como dar visibilidade a uma matéria que é tão importante.

Ítalo
Ítalo
4 meses atrás

Incrível! Este tema tem de ser abordado hoje e sempre.