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Em dezembro de 2020, o Brasil atingiu a marca de 180 mil mortes por Covid-19, um número que até abril do mesmo ano era visto como o pior cenário possível da pandemia, segundo as projeções mais duras feitas pela equipe do então Ministro da Saúde, Luiz  Henrique Mandetta. Hoje, o país soma cerca de 16,1 milhões de infectados e mais de 450 mil mortos, 249% do estimado.

SUS: O DIFERENCIAL DA SAÚDE BRASILEIRA

O Sistema Único de Saúde Brasileiro é um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo, sendo o único a garantir assistência integral e completamente gratuita para toda a população do país. Ele é referência mundial na erradicação de doenças por vacinação, como rubéola, poliomielite, varíola, entre outras.

“No ranking de segurança da saúde global Johns Hopkins publicado em novembro de 2019, entre 195 países, o Brasil era o 24° melhor. Em alguns quesitos, como o de contenção de propagação de doenças, nós éramos os nonos”, comentou Deisy Ventura, doutora em Direito e professora Titular da Faculdade de Saúde Pública da USP, em conversa com o biólogo Átila Iamarino publicada em seu canal do Youtube em março deste ano.

Há apenas cinco anos, o Brasil foi, pela primeira vez, o epicentro de uma Emergência de Saúde Pública de importância Internacional, durante a epidemia do vírus Zika, e conseguiu conter sua propagação. Hoje, é o 13° país mais afetado pela Covid-19 no mundo e ainda não conseguiu conter a doença. O que mudou desde então?

UM PACIENTE CHAMADO BRASIL

Esse é o título do livro escrito pelo ex-ministro Mandetta, lançado em setembro de 2020, no qual ele conta sua luta no Ministério da Saúde contra o novo coronavírus. O relato histórico, aponta a primeira tomada de decisão que impactou no cenário de hoje: adotar a imunidade coletiva por contágio, a chamada “imunidade de rebanho”. A estratégia consistiu em deixar um grande contingente populacional se contaminar organicamente para criar uma imunização em larga escala e superar a crise sem grandes investimentos públicos.

O Brasil não foi o único a adotar essa medida inicialmente; países como Reino Unido e Holanda também fizeram esse movimento, mas recuaram na decisão por implicar em um número elevado de mortos, de mortes evitáveis. Por esse motivo, a Organização Mundial da Saúde descartou a medida desde o primeiro momento como uma opção para conter a pandemia de um vírus desconhecido, cujos efeitos não são mensuráveis no curto, médio e longo prazo. O surgimento de variantes mais velozes e com possibilidade de gerar quadros clínicos mais graves – como tivemos em Manaus, Belo Horizonte e, mais recentemente, no Rio de Janeiro – é uma das consequências que descobrimos às custas dessa decisão.

Para garantir a eficiência da estratégia, o governo federal estimulou o uso de remédios, como a Cloroquina – medicamento cuja ineficácia já foi comprovada e ainda assim defendido pelo presidente até o mês passado – se opôs ao uso obrigatório de máscaras e alarmou, ao longo de todo o ano, que o impacto econômico seria mais mortal do que o vírus.

“KIT-COVID: OS IMPACTOS NA SAÚDE DE UM TRATAMENTO INADEQUADO

Cloroquina/Hidroxicloroquina, Azitromicina e Ivermectina foram medicamentos recomendados pelo Governo Federal para o tratamento contra o novo coronavirus, sendo inclusive, indicados como tratamentos preventivos ou “precoces”.

Em maio de 2020, a Sociedade Brasileira de Imunologia compartilhou estudos globais feitos com pacientes tratados com hidroxicloroquina que atestaram “uma maior incidência de falência cardíaca quando comparado com o grupo sem tratamento” e que os pacientes tiveram um risco aumentado de desenvolver quadros mais graves.

Mesmo com tantos estudos confirmando a ineficácia do chamado “kit-covid” para o tratamento dessa doença, o Ministério da Saúde, em janeiro desde ano, lançou o aplicativo TrateCOV para orientar médicos sobre o tratamento precoce, sugerindo a prescrição de hidroxicloroquina, cloroquina, ivermectina, azitromicina e doxiciclina, a partir de uma pontuação definida pelos sintomas do paciente após o diagnóstico de Covid-19, inclusive em bebês. A repercussão negativa do caso fez com o Ministério da Saúde recuasse e tirasse do ar o aplicativo alguns dias depois.

Hoje, estudos comprovam que não só o tratamento precoce não é recomendado, como agrava o quadro da doença, com aumento no risco de entubação e danos no fígado, entre outras consequências.

AS CONSEQUÊNCIAS DAS DECISÕES GOVERNAMENTAIS

Durante 337 dias, entre maio de 2020 e 22 de abril de 2021, o Ministério da Saúde manteve no ar, contra evidências científicas e pedido formal do Conselho Nacional de Saúde, a recomendação para o uso de cloroquina em casos leves, moderados e graves de Covid-19. O documento foi apagado no portal do ministério somente às vésperas da instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19 no Senado para investigar irregularidades do governo federal na contenção da pandemia.

No último dia 13, o presidente da Pfizer na América Latina, Carlos Murillo, detalhou em seu depoimento para a CPI o cronograma de negociações para a compra de dois lotes – de 30 e 70 milhões de doses – que foram ofertados em agosto de 2020, sendo que a última proposta, feita no dia 26 de agosto, garantiria “um pouco mais de quantidade para o primeiro trimestre de 2021”, afirmou.

Somente após 14 meses de pandemia, no início de maio deste ano, o Ministério da Saúde lançou uma campanha oficial de prevenção e vacinação contra o novo coronavírus. Ao invés de investir na compra precoce de vacinas e utilizar a força da logística e capilaridade do SUS na distribuição delas, a estratégia adotada foi a disseminação do vírus para encurtar a crise.

Há duas semanas, a CPI instalada já identificou alguns pontos relevantes: o governo possui um “aconselhamento paralelo” na gestão da pandemia que teria sugerido a decisão pela “imunização de rebanho”, houve uma tentativa de mudar a bula da cloroquina e ofertas de vacinas pela Pfizer ficaram meses sem resposta por parte do governo federal.

O resultado das decisões do Planalto é que, em número de óbitos proporcionais à população, o Brasil é o 13° país mais afetado do mundo, com cerca de 1.858 mortes a cada 1 milhão de habitantes, enquanto a média mundial é de 402. Na média diária de mortes em relação à população, o Brasil é o 8° pior atualmente, com 11,44 novos óbitos para 1 milhão de habitantes. A média mundial é de 1,66, de acordo com dados do Our World in Data divulgados no fim de abril.

VACINAÇÃO É A RESPOSTA À PANDEMIA

Na contramão da estratégia do governo federal, está a população. Segundo a pesquisa divulgada pelo DataFolha em março, 84% dos brasileiros querem ser vacinados. Em dezembro o índice era de 73% e, em janeiro, 79%.

Dados do Vacinômetro, produzidos pela Agência Brasil e pelo Localiza SUS do Ministério da Saúde, dizem que o Brasil tem mais de 38,5 milhões de vacinados com a primeira dose e 19 milhões de pessoas completaram a imunização. Monica Calazans, enfermeira, foi a primeira brasileira a receber uma dose da vacina Coronavac, em 17 de janeiro. Quatro meses depois, somente cerca de 18% dos brasileiros receberam a primeira dose da vacina e 8,7% as duas doses necessárias.

No dia 03 deste mês durante a participação em um evento na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), o atual ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, disse que o governo tem como prioridade a vacinação e tem a expectativa de vacinar toda a população brasileira ainda em 2021. “Estamos muito entusiasmados com a perspectiva de vacinar toda a nossa população até o final do ano. Isso é plausível”, afirmou.

Dois dias depois, o Ministério da Saúde admitiu ter divulgado um número superestimado de vacinas já contratadas. Em campanhas publicitárias, a pasta divulgou o número de 560 milhões de doses compradas. Contudo, ao ser questionado pelo Congresso, o Ministério informou que o número realmente contratado é a metade: 280 milhões de doses.

Na segunda semana de maio, o Instituto Butantan interrompeu – sem prazo de retorno – a produção da Coronavac por falta de insumos para a vacina vindos da China, e a Fiocruz anunciou uma pausa na produção da Oxford/AstraZeneca “por alguns dias” pelos mesmos motivos.

ATUAÇÃO DO MINISTÉRIO DA SAÚDE

Em fevereiro, o Ministério da Saúde, ainda sob o comando de Eduardo Pazuello, trocou um carregamento de imunizantes. As 78 mil doses que deveriam chegar no Amazonas, que na época tinha cerca de 92% dos leitos ocupados, foram desembarcadas no Amapá, que aguardava somente 2 mil doses.

Atualmente, cerca de 6% do total de brasileiros que deveriam ter recebido as duas doses, ainda não foram vacinados pela segunda vez e, consequentemente, não podem ser considerados imunizados contra o vírus. Além da falta de doses nos postos de saúde, falhas na estratégia brasileira e até fake news sobre os imunizantes, são as principais hipóteses citadas pelos especialistas para as abstenções da segunda dose.

Outra situação alarmante, identificada em abril, foi a imunização feita com doses de vacinas diferentes em pelo menos 16,5 mil pessoas. Na maioria dos casos as pessoas receberam inicialmente a vacina Oxford/Astrazeneca e, na segunda dose, a Coronavac. A informação foi divulgada pelo próprio Ministério da Saúde, com base nos dados do DATASUS. A pasta recomenda que as pessoas recebam as duas doses do mesmo fabricante, para não comprometer a eficácia da vacina.

O QUE AINDA ESTÁ POR VIR

Uma nova cepa do Covid-19 acaba de embarcar da Índia no estado do Maranhão. Atualmente, a Índia sofre um agravamento da pandemia, com cerca de 4 mil mortes diárias. A variante indiana B.1.617 já havia sido detectada em 44 países de todos os continentes e na última sexta-feira, chegou ao país.

O médico infectologista Estevão Urbano, um dos quatro integrantes do Comitê de Enfrentamento à Pandemia de Covid-19 em Belo Horizonte, disse ao jornal Estado de Minas que “Essa cepa nos deixa ainda mais em alerta. A variante encontrada na Índia pode ser até 50% mais transmissível do que a encontrada no Reino Unido. É uma situação complicada”, afirma.

Com tantas falhas na contenção e imunização, e diante de novos desafios que podem, inclusive, desencadear uma terceira onda, que futuro nos espera?

“A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação”. Assim diz a Constituição Brasileira. As deficiências no plano de vacinação, resultados de atrasos em contratos, problemas logísticos e discurso contrário à vacinação e à gravidade da pandemia, tem cobrado um alto preço ao governo federal, mas quem está pagando a conta, é o povo brasileiro.

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Daniella
Daniella
1 ano atrás

Excelente! Parabéns pela clareza e assertividade nas informações.