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Desde o mês de março, os governos estaduais começaram a tomar a decisão de liberar o uso das máscaras, conforme o índice de pessoas vacinadas contra a Covid-19 se tornava mais alto no país. Em São Paulo, o então governador João Dória anunciou no dia 9 de março que o item de proteção não era mais obrigatório em locais abertos, mas manteve a obrigatoriedade em ambientes fechados, que só foi liberada no dia 17 do mesmo mês, permanecendo apenas para transportes públicos e ambientes de saúde. Já no Rio de Janeiro, antes disso, no dia 7, as máscaras já haviam sido liberadas tanto para ambientes abertos quanto fechados.

Em outras capitais, como Belo Horizonte, Fortaleza, Belém e Manaus, a flexibilização do item de proteção aconteceu de maneira mais paulatina, ainda que, atualmente, todas já permitam a circulação sem o uso das máscaras em locais fechados. A Paraíba foi o último estado a fazer a liberação em ambos os ambientes, tendo permitido a circulação sem o utensílio na capital, João Pessoa, apenas no dia 7 de abril.

Mesmo com as decisões governamentais, ainda restam dúvidas de quais prevenções tomar sem a máscara ou se era o momento certo de retirar o item do uso rotineiro. “O atual cenário da pandemia é muito mais otimista do que era há algumas semanas ou meses. Nós vínhamos de um momento de queda no número de casos, quando veio o surgimento da variante Ômicron que levou a um aumento de casos novamente, mas já é possível vermos um esfriamento da onda dessa variante”, falou o pesquisador na Universidade de Vermont, Vitor Mori, para o podcast Café da Manhã da Folha de S. Paulo.

Para o infectologista Dr. Victor Passarelli, a retirada das máscaras como medida de proteção nunca foi uma prioridade. “Eu acho que não existe um momento certo ou errado. Isso depende muito mais da linha de raciocínio que a equipe de saúde em conjunto com as autoridades do governo acreditam, mas o uso universal de máscaras é uma medida que é extremamente barata, com a qual a população já estava bastante acostumada, e que é bem eficaz em reduzir a transmissão da Covid-19”, afirma.

Por mais que, na prática, até o momento nós não tenhamos visto um aumento de casos expressivos, tanto de internações como de óbitos, em locais de potencial aglomeração, principalmente transporte público e ambientes fechados com muito lotação, Passarelli continua recomendando que as pessoas usem máscara para proteção pessoal, ainda mais se ela tiver algum fator de risco.

OPINIÃO POPULAR: FLEXIBILIZAÇÃO COM MODERAÇÃO

Realizada na primeira semana de abril com 2.015 pessoas a partir de 16 anos de todos os estados brasileiros, incluindo o Distrito Federal, uma pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), em parceria com o Instituto FSB Pesquisa, indicou que mais da metade das pessoas continuará usando a máscara para ir a determinados lugares. Por exemplo, 73% dos entrevistados vão manter o utensílio de proteção para ir a supermercados; 64% para comércios de rua; 61% para shoppings; 52% para cinemas e teatros; e 50% para restaurantes e bares. Além disso, 59% das pessoas que trabalham de forma presencial preferem manter a máscara e 70% afirmaram que só viajariam de ônibus ou avião com o utensílio.

Ainda assim, segundo o estudo, o número de pessoas que usam máscara em lugares abertos e fechados caiu, nos últimos seis meses, de 55% para 29%; já as pessoas adeptas do equipamento apenas em locais fechados aumentaram, no mesmo período, de 40% para 53%. Por fim, atualmente, 17% dos brasileiros já deixaram de fazer uso da máscara totalmente, sendo que, há seis meses, esse número era de 4%.

A amostra foi controlada a partir de quotas de sexo, idade, região e escolaridade, e tem uma margem de erro total de dois pontos percentuais, com intervalo de confiança de 95%.

Para a psicóloga Beatriz Cortes, o comportamento de cautela nesse momento de flexibilização é normal, uma vez que a grande limitação antes vivida por conta da pandemia nos obrigou a mudar hábitos e a adaptarmo-nos a novidades com cuidado e preocupação excessivos voltados à saúde pública.

“Demoramos para nos adaptar com a pandemia, e agora com o retorno à ‘normalidade’ vai ser a mesma coisa. Toda mudança requer adaptação e gera ansiedade, e essa não será diferente. A pandemia foi muito impactante em vários aspectos psicológicos, nos fazendo ficar de frente com realidades tristes e de muito sofrimento, assim como o isolamento social e perdas significativas”, explica.

RETOMADA TÍMIDA

Após mais de dois anos desde o início da pandemia, a retomada às atividades em espaços sociais públicos está acontecendo de maneira tímida no Brasil, aponta a pesquisa realizada pela CNI e pelo FBS. Nos três meses que antecederam o estudo, ou seja, janeiro, fevereiro e março, apenas 18% das pessoas frequentaram cinemas e teatros; 21% academias; 22% shows e eventos; e 45% shoppings. Viagens de ônibus ou avião também foram feitas por menos da metade da população, cerca de 36%. Dentre as atividades cotidianas mais realizadas estão as idas ao supermercado (95%), a comércios de rua (84%) e a bares e restaurantes (52%).

Ademais, a maioria das pessoas, um 61%, concorda com a necessidade de apresentar o passaporte vacinal em qualquer tipo de estabelecimento contra um 31% que discorda e um 7% que diz não concordar nem discordar, dependendo da situação. Especificamente sobre a exigência do comprovante em escolas e universidades, 77% está de acordo e 17% não.

Por outro lado, com a redução do óbitos diários por Covid-19, o medo de conviver com pessoas não vacinadas diminuiu: 12% das pessoas têm medo muito grande e 19% têm medo grande. Na mesma pesquisa conduzida em novembro do ano passado, os valores eram, respectivamente 14% e 27%.

A FLEXIBILIZAÇÃO INTERNACIONAL DAS MÁSCARAS

Segundo o pesquisador Vitor Mori, em entrevista ao podcast da Folha, muitas das liberações de máscaras que foram feitas em lugares fechados em outros países aconteceram de maneira precoce. “Talvez o exemplo mais recente, entre abril e maio do ano passado, foi dos Estados Unidos. O grande problema é que a cobertura vacinal no país não estava tão alta a ponto de permitir a flexibilização em ambientes internos e ainda tinha o surgimento da variante Delta que gerou uma onda complicada da doença no país, com índice elevado de casos e óbitos”.

O infectologista Dr. Passarelli diz que, olhando para histórico dos países que flexibilizaram e tiveram aumento de casos, a resposta dos motivos para aumento dos casos pode variar muito porque cada país tem uma porcentagem diferente da população completamente imunizada e com doses de reforço. “No Brasil, nós tivemos uma certa ‘vantagem’ de ter iniciado as doses de reforço precocemente desde o fim do ano passado. Não foi como nos países europeus, por exemplo, que começaram [a aplicar] as doses extras depois que a nova onda de casos já estava aumentando”.

Vale ressaltar que, como foi dito anteriormente, não foi visto um aumento expressivo de casos no país, mas o infectologista diz que a situação possui uma série de variáveis que podem mudar o cenário de uma hora para outra ao longo do tempo. “A principal delas é o aparecimento de uma nova variante que escape parcialmente à imunidade e que consiga propagar a infecção, não necessariamente de forma grave porque as vacinas protegem. Não dá para afirmar nada, nem dizer que isso com certeza vai ocorrer, por isso é sempre importante manter a vigilância epidemiológica dos aumentos de casos e internações”, diz ele.

INDIVIDUALIDADE X COLETIVIDADE

“A questão da decisão pessoal de não se vacinar ou de não utilizar a máscara, de fato, é uma decisão que acaba sendo da liberdade de cada um, mas como toda a ação, essa também tem uma consequência e, no caso, pode ser, por exemplo, o impedimento de frequentar estabelecimentos comerciais ou ter a entrada negada em outros países”, explica Passarelli.

Segundo o infectologista, esse tipo de ‘punição’ é uma atitude correta porque o indivíduo escolheu não seguir as regras adotadas para proteção da saúde pública, indicando não ter a capacidade de entendimento que decisões individuais podem afetar o coletivo.

A psicóloga Beatriz Cortes vai de encontro com essa ideia. Ela diz que se vivemos em sociedade e diante de uma situação de saúde pública, é muito claro que pensar somente em si mesmo não é a melhor das decisões e o aspecto coletivo importa muito.

“Precisamos deixar de pensar somente em nós mesmos para lidar com uma realidade que está afetando um grupo. Um bom programa de conscientização e prevenção é o que move a coletividade visto que somos um país democrático e que o indivíduo tem direito de escolha e pode optar pela decisão que ele acha melhor. Portanto, se investirmos na educação, na prevenção e conscientização da saúde, o coletivo certamente será mais beneficiado”, completa.

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Vagner Schmidt
Vagner Schmidt
2 meses atrás

Parabéns aos profissionais que preparam as matérias, que contribui com a informação da população.