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Te ensinaram que você deve viver a partir do medo. Te ensinaram que você deve não viver. Mulher: hoje quero falar com você. Hoje quero falar por nós. Vamos? 

Em menos de uma linha esse texto já empaca. Minha dificuldade em começar já anuncia o pepino em que me meti. Escrever por nós, escrever para nós… nós quem?  

É uma missão perversa! 

Irei recomeçar partindo do que entendo ser nosso calcanhar de Aquiles: A mulher não existe! Disse, já no século XX, Lacan – um homem, infelizmente, pois por toda uma história foram eles que falaram por nós. 

Vamos lá. Mulheres pretas, mulheres brancas, mulheres indígenas, mulheres com vagina, mulheres com pinto, mulheres ricas, mulheres pobres… mulhereS! Essas sim, existem. Existimos. Ou melhor, tentamos existir. Mas A mulher, com A maiúsculo, como essa grande instância, essa grande definição, essa grande categoria singular, essa não existe. Então como falar com todas?  

Trata-se de um problemão.  

Devo admitir que meu medo de não dar conta da problemática, sendo excludente, simplista ou estigmatizante em minha fala, me colocou diante de uma grande tentação de simplesmente mudar de tema e estabelecer um caminho mais seguro para essa coluna.  

Leitora, quero orgulhosamente te dizer que eu seguirei firme! E o faço muito inspirada por Butler, que nos diz justamente que nossos problemas não precisam ser tanto problema assim. 

Explico melhor… essa constatação nos vale ouro.  

Especialmente em discussões sobre gênero é comum e esperado que nos deparemos com problemas, dada a complexidade da temática. Nosso problema, afirma Butler, não está efetivamente no fato de termos problemas. O fato de termos problemas, na realidade, denota que estamos olhando para nossas temáticas em profundidade.  

Mais custoso a nós, afirma a autora, é a valência negativa com que vemos esses problemas. O que nos custa mais caro é que fomos ensinadas que problemas são indícios de que estamos fracassando. Ninguém quer fracassar, certo? Portanto, o melhor caminho diante do “fracasso eminente” se anuncia a nós, por uma sutil artimanha do poder, como um convite ao recuo. 

Vocês já repararam o quanto a gente sente medo? Medo do nosso corpo, medo da nossa idade, medo de casar, medo de não casar, medo de ter filhos, medo de não ter filhos, medo de todas as formas com que podemos ser violentadas… a lista completa acabaria com meus caracteres disponíveis. 

Especificamente hoje, meu objetivo era justamente explorar com vocês as mazelas da socialização feminina, destrinchando esse grande freio injetado em nós que nos empurra diariamente à uma não-existência: o tal do medo.  

Emblematicamente meu inconsciente achou suas vias e deu a vocês, a partir de minha angústia por um (re)começo, uma vitrine cristalina para nossa pauta: meu medo quase me impediu de falar sobre os nossos medos. Eu, por pouquíssimo, não caí nas garras dos que nos querem quietas.  

Butler complementa seu raciocínio concluindo que “problemas são inevitáveis e nossa incumbência [a partir disso] é descobrir a melhor maneira de cria-los, a melhor maneira de tê-los”. É a partir desse convite que transfiguro o que inicialmente elenquei como problema em um grande alívio.  

Minha armadilha nunca foi não poder falar por todas. Minha arapuca estava em, diante disso, recuar. Na realidade, é justamente pela impossibilidade de generalizações, ou ainda, pela recusa cada vez mais radical de moldes de feminilidade, que mais assertivamente podemos buscar quem somos, nós, mulhereS. 

Nessa coluna, a partir de um aceite metodológico à uma postura errante, mas ainda vigilantemente comprometida com um “centrar-se e descentrar-se das grandes instituições definidoras”, como propõe Butler, “mulheres” define-se justamente na indefinição, anunciando-se na corda bamba entre destinos biológicos, imperativos culturais e performáticas possíveis, e não a partir da leitura de genitália.  

Aqui, espero que todas, cada uma com suas particularidades, se sintam sempre muito bem-vindas. Caso isso não aconteça em algum momento, te dou já como tarefa puxar minha orelha sem dó! 

Fechando por hoje, deixo para nós, mulhereS, meu apelo: que a gente não sinta medo de ser livre! Aliás, que a gente até sinta, o mundo realmente é mais perigoso para nós. Que a gente sinta nosso medo, mas sinta ele como impulso. Transmute-o a nosso favor. Faça-o de mola para estarmos ainda mais atentas, ainda mais presentes, ainda mais vivas!  

MulhereS: que a gente vá com medo e voe! 

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Rafaela
Rafaela
11 meses atrás

Perfeito!!!! Reflexão que se encaixou minhas angústias. Falou por todas as mulhereS, sim! Missão cumprida